Depois do fim

Antonio Alves

Um maluco que andava pelas ruas com um cartaz anunciando o fim do mundo, às vezes até marcando a data.

Esse era o personagem detonador de toda a trama na história em quadrinhos Whatchman, que, aliás, originou um ótimo filme. Pois bem, após um desses dias anunciados, o maluco vai à banca de jornais e o jornaleiro lhe questiona: “e então, o mundo nem acabou ontem…” Com expressão de indiferença e enfado, o profeta apocalíptico retruca: “tem certeza?”.

Por estes tempos de agora, poucos tem certeza, mas a maioria já desconfia que o mundo, de fato, acabou e estamos vivendo depois do fim. O que podemos fazer além de apoiar, por uma complacente margem de dúvida, os tantos movimentos e esforços que os melhores humanistas continuam fazendo para salvar o mundo? Há uma lista de coisas interessantes. Destaco duas, que tinha deixado há tempos, ao ponto de me considerar “curado”, mas… eis que retornei ao jogo de xadrez há cerca de dois anos e hoje, agora, neste exato momento, volto ao antigo hábito de escrever.

Meu retorno ao xadrez tem sido bem sucedido: no ano passado, reconquistei o título de Campeão “Mundial” Acreano (não é arrogância, apenas o reconhecimento de que o Acre, onde nasci e vivo, ainda permanece o que se costumava chamar de “um mundo à parte”). Mas os títulos, mesmo este tão significativo, não são maiores que o prazer desta singular arte-ciência que é o xadrez. Quanto às palavras e à tão plural arte-ciência de combiná-las na composição de um texto, que prazeres me terão reservado neste retorno após meia década de silencioso afastamento? Que as musas não me faltem e ao menos a formosa Caissa estenda sobre este humilde mortal seu olhar inspirador.

Não salvarei o mundo, isto é certo. Mas procurarei o que é possível encontrar: bons lugares e a boa prosa, um café forte e um tantinho amargo, as reflexões sobre a vida e o aprendizado lento nas voltas que ela dá, a arte que embeleza e dá sentido às paredes de nossa caverna.

Para não frustrar, entretanto, aos que ainda anseiam por alguma orientação política, devo dizer que minhas esperanças incluem a criação de “espaços” de diálogo, onde as palavras sejam ditas e ouvidas, escritas e lidas, com uma atenção menos apaixonada e mais amorosa. Dessa forma, o ambiente mental que se cria pode influenciar os relacionamentos e comportamentos para que não fiquem retidos na repetição dos conflitos, na bipolaridade pró-contra, no circuito vicioso do pensamento linear e unidirecional.

Quero explicar como tem sido, para mim, retornar ao xadrez como metáfora. Parece contraditório desejar um pensamento polissêmico e dedicar-se a um jogo de um-contra-outro, em preto-e-branco. O que percebi, após doloridas derrotas, foi que estava jogando como um perfeito “capivara”, reduzindo as infinitas possibilidades de um jogo tão complexo a um repertório tosco, repetitivo, sem criatividade. Voltei a estudar. Claro, é bom vencer o jogo, mas é ainda melhor encontrar soluções criativas, jogar partidas interessantes, aprender coisas novas e, principalmente, conhecer a mim mesmo e às minhas debilidades para corrigi-las e evoluir. Essa é a parte mais difícil -vencer a si mesmo- mas, também, a que proporciona mais prazer e melhores resultados quando transferida ao tabuleiro da vida e do mundo.

Uma batalha constante é superar a ansiedade: de arrematar o jogo com um ataque rápido, de finalizar o texto com uma frase brilhante, de encerrar a reunião com uma decisão inquestionável, de conseguir fazer o filho dormir com apenas uma cantiga, de que caia logo uma chuva para abrandar a secura do verão amazônico agravado pelas queimadas, de que os milhares de motoristas e pedestres nesse trânsito engarrafado dêem passagem ao ônibus em que estou, ou seja, que o universo inteiro obedeça à minha vontade impaciente.

Tenho observado que tudo requer preparação, espera, manobra posicional, escolhas estratégicas, consciência dos prazos, compromisso e responsabilidade, respeito e humildade, harmonia e ritmo. Tudo o que meu Mestre me ensina há milênios e que teimo em não aprender, acumulando uma sucessão de derrotas. Mas vamos seguindo, com fé e coragem, pois o caminho é longo. Acima de tudo, o amor é a ciência das ciências e a arte das artes.

Esta é a abertura de outra partida. O fim do velho mundo nos dá uma certa liberdade e resta sempre a esperança de que possamos vislumbrar -e criar- novos mundos.

 

 

12 thoughts on “Depois do fim

    1. Sim, como dizia um velho que conheci no Alto Santo, “a humilhação é que dá tudo pro homem”. Esteja à vontade para escrever também.

  1. Tentei compartilhar esse texto no twitter e não consegui. É assim mesmo, ou não?

    Parabéns Toinho! Amo seus textos, que bom poder “revê-lê-los”. Boa sorte com a revista!

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