Crítica: Corpo Elétrico

Veriana Ribeiro

No banheiro de uma balada LGBT, a MC Linn da Quebrada rebola em frente ao espelho com os amigos enquanto canta seu funk: “Vou te confessar que às vezes nem eu me aguento, pra ser tão viado assim precisa ter muito, mas muito talento”. Transgressora, a cantora trans enaltece o poder dos gay afeminados em uma sociedade que mata um homossexual a cada 25h. A cena faz parte do filme “Corpo Elétrico”, longa-metragem de estreia de Marcelo Caetano, que está em exibição em todo o país (inclusive em Rio Branco, no Cine Teatro Recreio, com sessões às 19h30 até quarta-feira, 23).

Selecionado para o Festival de Roterdã e premiado como melhor filme no Festival de Guadalajara, Corpo Elétrico não é um filme simples, mas ao mesmo tempo, é. O longa-metragem acompanha a vida de Elias, um jovem de 23 anos, gay, paraibano e que trabalha numa fábrica de roupas em São Paulo. O rapaz sonha em ser estilista, mas ao menos tempo, não traça nenhum plano a longo prazo. Em determinado momento, ao conversar com um personagem africano que começa a trabalhar na fábrica, ele explica: “Eu não gosto de máquinas, eu gosto é de gente”. É exatamente assim que ele leva a vida, através das pessoas com que se relaciona.

O longa-metragem não se preocupa em ter uma narrativa clássica, com uma apresentação de personagem, um grande conflito que terá um climax no final para ser resolvido. Não, ele se contenta na simplicidade da vida. No domingo solitário lavando roupa, nos encontros amorosos, nas férias na praia, em uma saída para beber com os amigos. Elias só consegue encontrar satisfação no trabalho quando ele está associado as relações de amizade com os colegas da fábrica. Uma leitura dessas gerações  y e z, que não conseguem separar a vida profissional da afetiva, que se insere em tudo o que fazem. A importância dessas relações fica evidente na própria fotografia do filme. Quando o protagonista está se divertindo com os colegas de trabalho, a câmera é fluida, próxima, móvel. Quando eles estão presos ao horário da fábrica, a câmera é estática, parada, monótona.

O sexo casual é apenas mais um forma de Elias expressar toda sua eletricidade, de encontrar a si mesmo e se relacionar com o outro. Ele não consegue ficar parado, esperando a vida acontecer. Claro que tanto ardor de viver também causa transtorno. O personagem parece estar sempre inconformado, insatisfeito, sedendo por mais encontros, bebidas, sexo, experiências.

O longa-metragem consegue, ainda, ser militante sem nunca perder a poesia – ou a ternura. Como tudo na vida de Elias (e o filme é muito centrado na construção do personagem), a história está nos detalhes. O personagem afirma, em determinada cena, que não fala com a família há um ano. Algo que poderia passar despercebido para muitos, mas sabendo que o personagem é um homem gay, é possível deduzir que a sexualidade é um dos fatores que contribui para esse distanciamento. Os amigos, as drags, os colegas de trabalho, tornam-se então sua família. É na mesa de bar e na cama de novos e antigos amores que ele procura o afeto que não encontra em casa, um retrato fiel da comunidade LGBT, em que se encontram muitos que foram expulsos de casa ao se assumirem.

Corpo Elétrico é uma ode às relações afetivas, mas também um grito de resistência. Operários e drags estão no mesmo espaço, à margem da sociedade, e por isso têm vínculos entre si. Esses corpos – negros, mulheres, pobres, gays, trans – se movimentam, vivem e convivem. São corpos que não se enquadram na normalidade, em um dia pautado em bater ponto, trabalhar e pagar as contas. Corpos que precisam extravasar e se movimentar para serem plenos. Corpo Elétrico é as drag queens andando de moto no meio da madrugada. É Linn da Quebrada cantando que pra ser viado é preciso talento. É Elias tendo que encontrar o mar para finalmente extravasar toda sua eletricidade. Corpo Elétrico é a vida, como ela é, afetadamente afetiva.

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