Fazendo as pazes com Brasília

Veriana Ribeiro

Brasília

Você me tira o ar
literalmente
me deixa
sedenta
por muito mais que água
faz eu me perder
nas tuas linhas retas
que parecem todas iguais

ainda assim
eu faço as pazes com você

 

Brasília não é um lugar de amor à primeira vista. Você não se apaixona logo de cara por essa cidade. O encantamento vem aos poucos, devagarinho. Eu já visitei Brasília quatro vezes, mas foi apenas este ano que entendi o encanto que algumas pessoas tem por esse lugar de linhas retas.

A primeira vez que fui a Brasília era uma adolescente. Passei apenas um dia na cidade e vi monumentos que eram belos, mas não me contavam nenhuma história em especial. Era tudo muito branco, moderno, inovador. Eu gosto de prédios com cara de história, que levam séculos nas costas. Não aquela cidade planejada. Na segunda vez, fui a trabalho. Descobri os hotéis, as reuniões, conferência, o calor. Também os bares, as casas de show, a vida noturna. Brasília se mostrou ligeiramente melhor do que na primeira vez, um pouco mais divertida, um pouco menos… estática. Ainda assim, fiquei poucos dias na cidade e não consegui decifrá-la. Até minha terceira visita, em que passei quase um mês em Brasília. Pude, enfim, conhecê-la. E não gostei.

Ou melhor, eu detestei Brasília e suas ruas que pareciam todas iguais, e suas pessoas, que pareciam todas iguais, e suas festas, que eram sempre as mesmas. Tudo na cidade era tão padronizado que me irritava. Eu não conseguia entender como alguém conseguia suportar Brasília. Era a cidade dos políticos, das pessoas em trânsito e para mim, faltava personalidade.

Ah, mas como eu estava enganada.

Nos últimos dez dias, percebi que Brasília tem personalidade. E muita. É como um monumento. Grande, impotente, planejado. Mas se você chegar bem perto, vai perceber as pequenas rachaduras, falhas, o vidro que foi trocado, o rabisco que algum adolescente deixou. Descobrir que ali tem mais história do que você imaginava. Brasília é tímida, se mostra aos poucos. Você precisa querer conhecê-la e quando der uma chance, vai parar em uma exposição sonora no meio de uma quadra de restaurantes, um festival de música entre as lojas da quadra comercial ou uma quermesse em um templo japonês cheia de comidas típicas e apresentações da cultura nipônica.

Brasília vai além dos políticos que vivem em suas bolhas partidárias, é um lugar de pessoas simpáticas, cheias de histórias. Grupos de amigos que estudaram e cresceram juntos, que traçam suas vidas em comunidade. Tem aquele espirito de cidade do interior, onde todo mundo meio que está interligado, ao mesmo tempo que cabe ali o mundo inteiro, ou melhor, vários mundos. Uma parte de cada canto, com seus embaixadores, políticos, imigrantes, operários, estudantes. Brasília é enorme e ao mesmo tempo, minúscula.

Na verdade, a cidade é feita das contradições. Como seu clima de deserto, que vai do calor insuportável até o frio angustiante em um único dia. Brasília é o tempo seco, a falta de água, as linhas retas, o céu límpido, os prédios de siglas famosas. É o transporte público que não funciona ao mesmo tempo em que o transito flui. É organizada, mas abriga a maior bagunça do país – o congresso nacional. É 8 e 80.

Brasília não é chata. É tranquila. O tipo de lugar em que você vai comprar pão andando, simplesmente para sentir a brisa. Que dá vontade de andar de bicicleta e comer churrasquinho na esquina. Ao mesmo tempo, a cidade parece estar prestes a explodir. Pelas frestas, pelos corredores escuros, pelos cantos, entre as lojas, restaurantes e shoppings. Ela não se aguenta em si mesma.

Por muito tempo eu odiei Brasilia. Pela sua política que me enojava, pelas pessoas que não entendia, pelos seus lugares que me deixavam confusa. Mas esse ano, nós fizemos as pazes. E percebi que a cidade é muito mais do que se vê. Acredito que ainda preciso de muitas outras visitas para realmente conhecê-la. Namorá-la. Entendê-la.

Não é a toa que Brasília tem o formato de um avião. Se você quiser, ela pode te fazer voar. Cabe a você descobrir para onde.

One thought on “Fazendo as pazes com Brasília

  1. não é à toa que na foto você está vendo a cidade do topo por uma tela gradeada. seu perfil está oposto à esplanada dos mistérios com dois ovnis pousados ao fundo um deles emborcado. ainda não sabes mas estas grades são para proteger os visitantes da vontade de voar do mirante da torre de tv. o impulso de passarocidade passa logo: edifício é a vida e seu ofício como diria maiakovski aos que não querem saltar etapas com saudades de esquinas e calçadas. a grama seca lá embaixo espera a chuva como os ossos esperam a carne e os sonhos esperam a alvorada.

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