Caissa amazônica

Expectativa para o torneio Regional Norte de Xadrez

Antonio Alves

De 7 a 10 de setembro, em Manaus, será disputado o já tradicional torneio Regional Norte um dos raros momentos em que enxadristas de toda a Amazônia se reúnem, superando as grandes distâncias e os altos preços das passagens aéreas. Essas são dificuldades adicionais para nós, que nos dedicamos ao Xadrez no Norte do Brasil, e por elas vivemos separados. Houve um tempo em que a CBX criou zonais classificatórios ao campeonato brasileiro que dividiam a região norte em duplas de estados: um zonal para Acre e Rondônia, outro para Amazonas e Roraima, outro para Amapá e Pará (naquele tempo ainda não existia o estado do Tocantins). O Norte é gigantesco, sempre foi difícil reunir todo mundo.

Mas em 1996 resolvemos encarar o desafio. Eu era secretário de Cultura em Rio Branco, na gestão do prefeito Jorge Viana, fiz contato com Andrey Neves, em Manaus, com os amigos e adversários frequentes de Rondônia, começamos a mobilizar a região. Andrey já tinha passado uma temporada em Rio Branco e por isso era campeão de dois estados, Acre e Amazonas. Do Pará veio um menino, Camilo Rodrigues, prodígio que aos 12 anos já era um dos mais fortes jogadores do Norte. O empate na partida contra ele é uma das boas lembranças que tenho desse torneio.

Fiquei em segundo lugar, Cleobis Nogueira, também do Acre, foi o campeão. Éramos os dois jogadores mais “velhos” no torneio, ambos já com quase 40 anos de idade, e estávamos afastados das competições há algum tempo, o que deixou o Grande Mestre Jaime Sunyê espantado -ele era presidente da Confederação (CBX) e veio acompanhar a competição. Tentei explicar o resultado, dizendo que quem aprendeu a nadar, mesmo que fique longe da água por muito tempo, pode entrar num rio sem medo de se afogar. Sunyê replicou: “não morrer afogado é uma coisa, ganhar uma prova de natação já é outra coisa bem diferente”.

Parece que criamos outra tradição, além do torneio: os “velhos” se fazem respeitar no Regional. Em 2015, Andrey Neves, já com mais de 45 anos, foi o campeão pela sétima vez. No ano passado, o título ficou com o experiente Nelson Moraes, campeão paraense – e em segundo ficou o cubano-acreano Dino Cabrera, também com mais de 40 anos. Os jovens talentos sempre se revelam e impressionam, mas há uma geração anterior que resiste no pódio amazônico. Muitos passaram alguns anos parados -dedicando seu tempo à família e ao trabalho-, mas estão de volta mostrando a mesma força: o já citado Nelson Moraes, no Pará, o multicampeão amazonense Pedro Moraes e, em Rondônia, além do eterno romântico Janio Silva, temos o Mestre Fide Ricardo Benares -que tinha 12 anos no Regional de 96.

Benares é um dos poucos amazônidas que alcançou título da Fide. Rivalizava com o acreano Iung Pinheiro, em força e juventude, mas o Norte perdeu Iung para o Ceará, para onde mudou-se há muitos anos. Renan Reis, do Amazonas, ficou sendo o segundo MF da Região até que neste 2017, no Zonal 2.4 em Curitiba, o amazonense Andrey Neves conseguiu sua promoção. O Norte tem, assim, apenas 3 MFs, muito pouco para uma região tão grande. Tamanho é dificuldade, por isso o Regional é tão importante.

Mas as coisas estão mudando. O Regional deste ano traz uma novidade: o campeão estará classificado diretamente para a final do Campeonato Brasileiro. Antes, o torneio dava vaga apenas para as semifinais. E jogar uma final do campeonato nacional, mesmo no novo sistema de matches eliminatórios -em que os perdedores voltam pra casa mais cedo- é uma oportunidade de participar de uma competição de alto nível, rara para os jogadores da região Norte.

O agora MF Andrey Neves participou da final do brasileiro no início deste ano e tem vontade de repetir a experiência. Para isso, terá que conquistar o oitavo título regional de sua carreira. Me disse, por whatsapp: “eu pretendo lutar por esse título, mas será uma competição difícil, não vejo um jogador muito superior aos outros”. É sábio moderar as expectativas, pois embora o CM Nelson Moraes não tenha confirmado sua participação, o antigo campeão amazonense Pedro Moraes, que rivaliza com Andrey em número de títulos, pretende jogar. O MF Renan Reis já confirmou e há possibilidade de que o MF Benares também esteja na disputa. Se os todos participarem, será, sem dúvidas, o mais forte Regional Norte, até agora.

Estou com muita vontade de jogar esse torneio, mas ainda preciso reunir condições pessoais e financeiras (vocês sabem: o leite das crianças). Não tenho pretensões ao título, contento-me com a perspectiva de jogar boas partidas e dar trabalho aos mestres. Minha prioridade, este ano, é defender o título estadual num match contra o desafiante, que será escolhido justo na mesma data, no “torneio de candidatos” acreano. Escapar com vida num Regional tão forte seria, sem dúvidas, uma boa preparação.

Para antecipar a disputa entre os favoritos (caso Nelson e Benares não participem), vejamos um confronto recente entre Andrey e Renan, um emocionante empate no ano passado.

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