O duplipensar na internet

Será que somos todos personagens de 1984?

Veriana Ribeiro

No livro distópico 1984, o protagonista Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade, um dos quatro ministérios que compõem o governo da Oceania e que cuida das notícias, entretenimento, artes e educação. Ironicamente, o principal objetivo deste ministério é administrar a propaganda e falsificar a história. Smith reescreve artigos de jornais do passado, de modo que o registro histórico sempre apoie a ideologia do Partido.

Ultimamente tenho pensado muito em Smith e seu trabalho. Afinal, o que é verdade?

Este mês ocorreu a marcha dos suprematistas de Charlottesville. Com o aumento do neonazismo – ou pelo menos com esse movimento indo para as ruas, quando estávamos acostumados com ele escondido nos fóruns obscuros da internet – começou uma narrativa sobre o lugar do nazismo nos livros de história. Nem mesmo a direita quer ser associada ao holocausto, então por que não dizer que o nazismo, na verdade, é um movimento socialista e comunista? Foi exatamente isso que aconteceu.

A narrativa do nazismo-de-esquerda foi tão propagada que tomou ares de verdade. Logo pipocaram resposta do “outro lado”, que mostrou suas provas de que o nazismo é um movimento que odiava o comunismo e grifando frases que poderiam muito bem ter sido ditas pelo Bolsonaro. “Viu, os nazistas são vocês”. É engraçado como qualquer assunto sério na internet consegue chegar ao patamar de uma discussão da sétima série. Foi necessário que os jornais se metessem na briga e fizessem matérias, entrevistando historiadores para tentar “descobrir” a verdade.

Por mais distópico que seja 1984, não estamos muito longe dessa realidade e a narrativa do nazismo de esquerda é uma prova do que já vem acontecendo, há muito tempo, na internet. A história, a verdade e os fatos estão sendo constantemente manipulados, modificados, reescritos através das redes sociais. Algumas frases sensacionalista são o suficiente para transformar verdades absolutas em mentiras deslavada, ou vice e versa. Ninguém mais acredita nos livros de história que foram escritos baseados em jornais que, todos sabem, são controlados por quem pagar mais. As fake news tem mais validade que as notícias. Notícias são dadas por quem que não confiamos. A Globo mente, a Veja mente, a Carta Capital mente, o Fórum mente. Todo mundo mente, dependendo do seu lado ideológico.

Somos todos agentes da Oceania, reescrevendo a história para que ela se encaixe na doutrina do Partido. Seja qual for o partido. Na novela, Orwell discute a razão para a existência do Ministério da Verdade: o seu objetivo é criar a ilusão de que o Partido é absoluto. O Partido não muda suas diretrizes, não troca de aliados, não comete erros, porque isto implicaria fraqueza, e para manter o poder o Partido deve parecer eternamente correto e forte. Alguma semelhança com alguns/vários partidos que conhecemos no Brasil? Com algumas coligações que acontecem, sei lá, em Alagoas?

É importante lembrar que os três grandes lemas do Partido, em 1984, eram “Guerra é Paz”, “Liberdade é Escravidão” e “Ignorância é Força”. As palavras, portanto, ganham outro significado. Não é a toa que a novilíngua, idioma usado em Oceania, era desenvolvida não pela criação de novas palavras, mas pela “condensação” e “remoção” delas, com o objetivo de restringir o escopo do pensamento. É preciso perder o sentido das palavras, tirar o significado das coisas.

Em um mundo onde o número de pessoas que acreditam que a terra é plana aumenta, a verdade é uma palavra que parece ter perdido o sentido. Talvez a gente deva começar a usar o termo duplipensar, que na novalíngua significa “o duplo pensamento, a duplicidade de pensamentos, saber que está errado e se convencer que esta certo”. E seguimos vendo os vários Smith na internet reescrevendo a história para um Big Brother que nem sabemos qual é.

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