9,99

Preço de ocasião

Antonio Alves

Não quero ser chato, mas devo insistir: entra aí na loja virtual e compra meu livro (ebook), Política Zero. Custa apenas 20 reais e se você quiser posso baixar para 19,99. Insisto por dois motivos: um, preciso de dinheiro e quero saber se posso viver e sustentar minha família como escritor. Dois, acho que é um livro bom, embora sobre um assunto ruim.

Dado o recado, vamos detalhar os motivos. Primeiro, o primeiro. As pessoas encontram comigo na rua, os amigos conversam ao telefone ou por whattsapp e dizem: volte a escrever, precisamos ler textos interessantes. Agradeço o elogio e até me compadeço da solidão de quem anda no deserto da vida contemporânea, num país emburrado pela breguice da TV e enfezado pela política inadjetivável. A internet oferece opções, mas nem posso dizer se a estupidez e a inteligência estão distribuídas nas mesmas proporções do mundo presencial.

De todo modo, desconfio dos lamentos. Querem mesmo ler mensagens maiores que 140 caracteres, mastigar algo mais nutritivo que o chiclete habitual da imprensa, ver comentários diferentes do kkkk? Afinal, todas essas coisas tem a virtude de dar descanso ao nosso cérebro cansado, ansioso por esquecimento e distração e, sobretudo, com o custo dividido em tantas e tão variadas taxas que tudo parece grátis. Nada além de 9,99 a cada minuto, a cada objeto emoção palavra pensamento. Fica incorporado ao preço da modernidade, o preço do progresso, o preço da liberdade, o preço da enorme ilusão de termos feito um ótimo negócio ao trocar a dura realidade de produtores da nossa própria vida pelos sagrados direitos de consumidores de uma vida pronta, entregue em domicílio.

Não precisamos decidir, já decidiram por nós. Nem votar, a pesquisa elege o vencedor. Nem chutar uma bola, apenas bater palmas para o craque. Nem mesmo fazer uma prece, há quem a faça na televisão, basta escolher com o controle remoto aquele cujo grito chega aos ouvidos de Deus. Ler? Não se dê ao trabalho. Pensar? Isso cansa.

Pra que servem os escritores? Talvez possam arranjar emprego como redatores na indústria do entretenimento, assessoria política, fábrica de corretores ortográficos, sei lá. Livro ninguém compra, todo mundo diz com orgulho e o peito inflado que morre de preguiça de ler. Quer mostrar e provar que estou enganado? Já falei, deixo por 19,99.

E assim vamos ao segundo motivo: política é uma droga, mas Política Zero é bom. Porque não é, como o título possa dar a entender, uma expressão de desilusão ou enfado, mas uma reflexão sobre o pensamento possível no ambiente de maior mediocridade e a liberdade possível no interior do autoritarismo. A mediocridade não tem preferência partidária e o autoritarismo não é monopólio estatal. Há mediocridade na vida “social”, nas academias de ciências humanas e desumanas, na fila do pão, na interessantíssima vida alheia. Autoritarismo é coisa de todo mundo, cada um contra si, supressão voluntária da própria liberdade de ser: proíbo-me de sentir isso e de pensar aquilo.

Falar mal da política e dos políticos é uma boa maneira de fingir que não tem nada a ver com isso. A coisa pública é disfarce da doença nas partes íntimas. Da alma. Política Zero não é um manifesto, mas um prontuário: relato de uma longa e profunda dor e receituário de cura, reza e raiz. É segredo meu, só estou vendendo por necessidade.

Comprar é política, direito do cidadão. Ler é decisão pessoal. Viver não é pra qualquer um.

Tem coragem? Tem vinte reais?

https://caissa-me.com/lojavirtual/

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *