“We are Chinese!”

Nós, vistos de longe.

Iara Vicente

Este verso da talentosa escritora Xiaoyan Li me emocionou, quando estudava na Universidade de Columbia. Ela resgatara a história oral dos soldados Kuomitang, derrotados pelo exercito vermelho de Mao Tse-Tung durante a Guerra Civil Chinesa, entre 1926 e 1950 . Ela, que cresceu na República Comunista da China, via-os retratados com o arquétipo do vilão mau, um pouco bobo e desengonçado. Era o que lhe passavam os filmes do regime, e em Nova York ela resolveu escutar a história dos sobreviventes.

“There is no enemy. We are Chinese”. Ela leu, durante uma de nossas aulas. Lembrei disso enquanto rascunhava a primeira versão deste artigo – que iria se chamar, ironicamente, Há Gringos e Gringos. Mas aí me veio a voz doce de Xiaoyan na memória e me disse: “We Are Chinese!”. E vi que não havia mais sentido nessa abordagem. Geopolíticas a parte, somos gente. Cultivar a nossa humanidade comum e exercer alteridade precisa ser um exercício de vencedores e vencidos, para que haja esperança de reconciliação.

Assim como a morte é a nossa passagem para o grande talvez¹, viajar é adentrar o grande “outro”. É ver, sentir e cheirar o que só se sabia antes no intelecto. Padrões sociopolíticos se tornam pessoas com nome e sobrenome. Geopolítica vira esquina, cais e beira de rio (do Rio Acre para o Rio Hudson). E a nossa identidade, em casa tão miúda e subentendida, vira padrão e microscópio para a vida de tantas outras pessoas -e por elas é também imaginada, ainda mais quando falamos de uma pessoa nascida na Amazônia Brasileira, como eu.

Não é todo mundo que sai, muito menos para ir estudar, então tinham muita curiosidade em torno da floresta e do que ela significa pra nós. Mas confesso que, do ponto de vista político, foi muito diferente do que eu esperava. Aparentemente, já passou o tempo da proteção do patrimônio natural como carro-chefe do ambientalismo mundial.

Confundiam Amazônia com a e-loja Amazon, pra você ter uma noção. Simplesmente não estava na pauta principal. Talvez aquela provocação que Marina Silva de vez em quando faz, quando diz que “é muito fácil cuidar do meio ambiente no ambiente do outro”, tenha sido absorvida-refletida pelo momento histórico.

Nos unimos, no entanto, no zeitgeist² que se assemelha a algo no sentido de “we just screw up really bad and have no idea what we are doing” (a gente lascou tudo valendo e não tem mais a menor idéia do que está fazendo, numa tradução liberal). Digo isto porque até os mais reconhecidos cientistas de nosso tempo já disseram que não podem carregar  sozinhos o fardo de reverter o aquecimento global através de inovações tecnológicas. Estamos numa corrida maluca contra o tempo, tentando fazer a engenharia reversa de problemas que não sabemos ainda como podemos resolver. E isto tem promovido um encontro de cada nação com seu legado ambiental. Nos países desenvolvidos, isso significa a ressaca da sociedade pós-industrial, suas emissões de carbono e suas contradições.

O fato é que as grandes economias do mundo finalmente começaram a se preocupar com seus poluentes, padrões de consumo e com o estado dos grandes centros urbanos. O que é ótimo. E isso nos deixa com uma grande responsabilidade: cuidar das nossas florestas sem a mobilização internacional à qual nos acostumamos. E provavelmente teremos de fazê-lo contornando a política, tendo em vista tudo o que aconteceu no Brasil nos últimos 5 anos. Talvez nos reste o que sempre teorizamos, interpretar a floresta como um ativo econômico. Ativo no sentido de “asset”, de motor de desenvolvimento, provedor de riqueza e não como um problema. E em nossos centros urbanos, ver o verde como a salvaguarda emocional que impede de nos tornarmos coisa-gente, abarrotados pelo caos da urbe brasileira.

Passei um tempo lá fora falando sobre nós. Sobre Amazônia, sobre Chico Mendes. Tio Marcos³ me ajudou. Foi bom, foi bonito, mas faltou achar os aliados valendo, como diriam no Pará. Aqueles que realmente estão comprometidos com a agenda socioambiental dos trópicos. Meus encontros com estes apesar de belos haviam sido episódicos, o que não garantia impacto de escala. Enfim, cheguei ao UNLEASH Lab, um laboratório de inovação focado nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. O documento foi construído em 2015 e é o primeiro consenso global em torno de o que precisa ser feito para cuidar desta casa que todos compartilhamos.

Nos levaram para a Dinamarca, eu entre outros 1000 jovens profissionais, considerados “talentos” do desenvolvimento sustentável. Lá virei “a menina do Acre”, o que, em tempos de Bruno Borges, é no mínimo engraçado. Mas engraçado de um jeito bom. Vi tanta coisa, tanta idéia boa, e até as outras Amazônias representadas, pulsantes, pensantes e prontas pra fazer coisas boas juntas. Atentos e amáveis, os nossos pares estão por aí. Eu vi, abracei, chorei, conversei. Sou prova. Uma frase muda mesmo o fim do filme.

 

¹Últimas palavras de François Rabelais, de acordo com a biografia Life of Rabelais, de Petter Antony Motteux (1964).

² Espírito dos Tempos, em Alemão.

³ Marcos Afonso, ex-deputado federal e professor de filosofia no Acre.

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