Nossas chances

O desafio do verão amazônico ergue-se mais uma vez no horizonte como o sol vermelho por trás da fumaça.

Antonio Alves

No próximo sábado, dia 2 de setembro, vai ter uma manifestação (o nome é antigo: Ato) em defesa da Amazônia, num lugar com o lindo e sugestivo nome de Rampa do Açaí, em Macapá, capital do Amapá. O lugar não foi escolhido apenas pelo simbolismo, pela localização às margens do rio Amazonas, a poucos metros de onde passa a linha do Equador (Macapá é a capital dos dois Hemisférios da Terra). Há também um fator político: o prefeito da cidade e um dos senadores do estado (Randolfe) são da Rede Sustentabilidade -e o nome diz tudo.

Independente de política partidária, o assunto é de todos. Fiquei bem impressionado, na semana passada, com a repercussão que teve um decreto temerário extinguindo a Reserva do Cobre, abrindo à exploração mineral (algumas empresas internacionais souberam do decreto antes de ser editado!) uma região cercada por reservas ambientais e terras indígenas. Lá no recôndito das comunidades suburbanas em que vivo ou por onde ando, vi manifestações indignadas contra o governo que quer “vender a Amazônia”. Sei, pelos poderes do celular, que esse sentimento se mostrou forte em todo o país. Parece que existe ainda um resquício de consciência nacional que vai um pouco além do sentimento de posse sobre a “nossa” Amazônia e concede alguma importância à conservação da floresta. Afinal, Amazônia sem floresta não é Amazônia.

O verão amazônico, a estação de pouca chuva, é quando mais sofremos. Rios secos, calor insuportável e a fumaça das queimadas no ar. Até quem tem o umbigo enterrado aqui, às vezes pensa em ir embora. Temos uma deprimente sensação de que estão cada vez mais reduzidas as chances de sobrevivência -da floresta e das pessoas. Alguns, mais conscientes e sensíveis, perguntam: o que será de meus filhos, meus netos, daqui a alguns anos nesse mundo?

Por esses dias circulou, em Rio Branco, a notícia de uma pesquisa feita na Universidade Federal do Acre (Ufac) mostrando o risco do rio Acre secar em algum verão dos próximos 30 anos. Não é a primeira vez que temos esse tipo de alerta, algumas pessoas e organizações já vem falando disso faz tempo. O jornalista Altino Machado, de cuja página na internet copiei a foto -já antiga- que está aí no alto da página, falou com o Senador Jorge Viana, que ficou de entrar em contato com os pesquisadores da Ufac e promover alguma ação sobre o assunto. Também conversei com Jorge, e me disse que a recuperação das matas ciliares no vale do Acre teria que ser um trabalho permanente, por um longo tempo, e não é nada barato. Mas repetiu que está disposto a reunir pessoas e organizações para começar esse trabalho.

Bem, então se os governos e outros poderes públicos começarem a se mexer, tudo será resolvido e o apocalipse será adiado. Certo? Pelo tipo de atenção que o Estado brasileiro deu à floresta nos últimos 500 anos, a única coisa certa é que estaremos num enorme inferno -com a capital em Manaus- em pouco tempo. Não estou desconhecendo que, às vezes, os governos fazem alguma coisa. Criam reservas, por exemplo. Mas a administração seguinte extingue a reserva ou ajuda grileiros a invadi-la, financia o desmatamento etc. etc. Não digo que tenhamos que desistir do Estado, mas também não dá pra ficar esperando.

Eu bem me lembro do tempo do Chico Mendes. Andei com o sertanista Antonio Macedo nas cabeceiras do rio Juruá e acompanhei o trabalho do txai Terri Aquino nas aldeias indígenas. Sei que o prejuízo da Amazônia, nas últimas décadas, foi maior nos lugares onde as comunidades se dispersaram ou ficaram dependentes de governos ou organizações externas. A ação desses velhos batalhadores consistiu sempre, principalmente, em ajudar as comunidades a se organizarem e buscarem sua autonomia. É lento e difícil, mas é o único trabalho que dá resultado.

Hoje não sei como estão as comunidades. Mas posso conversar com algumas pessoas que ainda estão por aí, tocando projetos de “desenvolvimento sustentável” e enfrentando as dificuldades que os antigos enfrentaram (a falta de dinheiro, de visibilidade, a indiferença pública e privada… e até o retorno da violência, nos últimos anos). Elas nos dirão como estão as coisas no mundo real, se melhores ou piores que esse filme de terror que está passando na TV.

Há também uma extensa pauta de decisões e atitudes cotidianas, pessoais e até domésticas que podem melhorar as nossas chances, isso é algo sobre o que todo mundo tem algo a dizer, mas é assunto pra outros dias. Por enquanto, fiquemos com os meios comuns de expressar nossa apreensão.

Quem estiver em Macapá, no sábado, vá ao Ato. E ponha ao menos uma fotinha no feice.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *