Velhos Mestres

Lições de xadrez para uma vida inteira

Antonio Alves

Eu pretendia escrever sobre “ver partidas dos Mestres” e já me preparava para ilustrar com alguma das ótimas partidas recentes do armênio Levon Aronian, um dos meus favoritos na atual elite do xadrez mundial. Mas quando abri o site chess24.com me deparei com esta linda imagem: duas fotos, dois encontros dos GMs Yuri Averbach e Boris Spassky. A foto de baixo é da década de 1950, quando eram jovens; a de cima é atual, Boris tem 80 anos de idade, Yuri tem 95. Em ambas, eles conversam com um tabuleiro de xadrez sobre a mesa, certamente analisando alguma partida.

Mudou um pouco meu assunto, mas nem tanto. Eu estava motivado por um bate-papo ocorrido há algumas semanas num grupo de whatsapp que reúne enxadristas de vários estados, onde o capivara acreano Neurismar Souza revelou que meu método de treinamento para o campeonato estadual do ano passado tinha sido “ver partidas dos Mestres”. Não foi bem assim, também andei estudando tática, estratégia e até pesquisando algumas variantes das aberturas que os adversários costumavam jogar. Mas, de fato, nos vários e longos períodos em que não tinha tempo para estudar, não deixei de acompanhar os torneios internacionais e ver as partidas dos jogadores mais fortes do mundo.

Pois bem, acontece que esta semana vi o GM Rafael Leitão -várias vezes campeão brasileiro, um dos mais fortes da América Latina, que tem um ótimo site que ele chama de Academia (rafaelleitao.com)– contar uma história interessante. Numa viagem, encontrou com o pai do campeão mundial, Magnus Carlsen, que lhe contou como o filho costumava estudar. Adivinhem: vendo partidas de mestres. Achei divertido e resolvi escrever sobre o tanto que tenho em comum com o campeão mundial… “só que não”, como costumam dizer os jovens da idade dele.

Mas o encontro de Averbach com Spassky me renovou o assunto e a esperança de praticar esse maravilhoso esporte ainda por muito tempo. Já devo ter visto, nos livros e revistas de minha juventude, dezenas de partidas desses dois. Ainda guardo o velho livro de finais de bispos e cavalos de Averbach, um clássico. E recomendo o xadrez para quem quer escapar do “alemão” (também conhecido por Alzheimer). Entre os Mestres de xadrez, o índice de incidência do terrível mal é quase zero.

Ainda mais próximo de zero é a probabilidade de que eu venha a ser um Grande Mestre. Mas alguma coisa aprendo e muito prazer tenho no convívio com eles, através de suas maravilhosas obras. E penso que uma mostra de inteligência é reconhecer a maestria, onde quer que se manifeste. Na escrita, nas artes, na fabricação de tantas coisas necessárias à vida, no relacionamento entre as pessoas, nas ciências, nas cidades e nas florestas, em tudo e em toda parte, o Mestre se manifesta e espalha o perfume de sua sabedoria.

Averbach e Spassky são amigos e adversários no xadrez há mais de 60 anos. Viveram os tumultuados anos da decadência do império soviético, com suas intrigas mais baixas e seu xadrez mais elevado. Carregam parte significativa da memória de um século intenso na história do velho mundo. Procurei uma partida entre eles e encontrei uma muito especial, que jogaram em 1956, ano em que nasci. Averbach tinha nítida vantagem na abertura, mas Spassky criou surpreendentes complicações sacrificando um cavalo no lance 16. Após uma luta épica, com erros e acertos de ambos, a partida terminou num empate. Quem ficou com o título foi Mark Taimanov, outro gigante que deixou lições valiosas ao morrer, há poucos meses, aos 90 anos.

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