Calma

… que o Brasil não é nosso.

Antonio Alves

Já estive em diversas situações difíceis, na vida, assim como quem está em uma posição perdedora na partida de xadrez. Aquele momento em que não há solução, nem fuga possível. Se correr o bicho pega… No ano passado, vi uma vídeo-aula de xadrez em que um velho Gran Maestro falava de posições assim. E o que ele recomendava era uma atitude baseada no que chamava de “imperturbabilidade”. Vejam só, ficar imperturbável. Sim, enquanto a casa está caindo. Fácil, né?

Às vezes, não é que seja fácil, é que não tem outro jeito. Um dia desses passei por uma situação assim, mais difícil porque inesperada. Minha Marina perguntou: e você consegue ficar calmo numa hora dessas? Respondi: claro que sim, afinal eu tenho que manter a calma, senão tudo vai ficar pior. Lembro meus antigos companheiros da turma que jogava xadrez em Brasília, nos idos do século passado, que diziam: “se é forçado, é bom”. Quer dizer, quando você só tem um único movimento possível, então esse movimento é bom, o melhor.

É possível comparar a história de um país com a vida de uma pessoa. Na verdade, vivemos fazendo isso, quando dizemos “o Brasil está assim ou assado” estamos atribuindo uma identidade pessoal ao país. Quem é “o Brasil”, afinal? (“Mostra tua cara”, dizia Cazuza. País tem cara?) Pois bem, podemos dizer, com certeza, que o Brasil está numa situação mais que difícil. Passou de desanimadora, é desesperadora. Ecoam antigos versos de Drummond: “não veio a utopia/ e tudo acabou/ e tudo sumiu/ e tudo mofou”.

Já estive numa “conjuntura” assim, em minha vida. Era tudo enlouquecidamente sem jeito, tudo quebrado, tudo perdido. E eu me lembro que, no meio da loucura, eu respirava e dizia pra mim mesmo: calma. Calma. E não havia mesmo nada possível que não começasse por ficar calmo.

O Brasil já foi um país, tinha de si mesmo uma imagem, algo semelhante a uma identidade geral que unificava a grande variedade interna que sempre teve e mantinha até com certo orgulho. A mais pesada das drogas transformou aquele Brasil numa  cracolândia política, onde vagam milhões de indigentes que, insanamente, ainda brigam entre si disputando sabe-se lá o quê.

Não posso recomendar nada a ninguém. Também estou tentando entender. Mas volto a ouvir a voz que diz, dentro de mim: “calma”. E sei que não há outro movimento possível. Todos vamos ter que aprender a contemplar a crise sem desespero, tentando manter o máximo de lucidez. Logo alguém grita: “contemplar, nada, precisamos agir!” e sai batendo a porta da urgência. Não posso me avexar. Imperturbabilidade. Se não sei o que fazer, nada de afobação.

Ainda vai demorar até que nasça algum consenso, pacto, acordo, entendimento… qualquer nome. Até lá, quem sabe, teremos eventualmente alguma melhora aqui e ali, em meio à derrota geral. Mais adiante veremos o que vai cair e o que vai ficar em pé. Sem pressa: “cadê o povo que não sai na rua e quebra tudo?”. Não é bem assim e, como se dizia antigamente, o buraco é mais embaixo.

Aos poucos, alguns caminhos aparecem, outros mudam. Mas é preciso  ter calma.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *