Duas cidades e um coração

Vássia Silveira


Conheci Amanda Escócio no final de outubro de 2011. A moça bateu na porta de casa em uma madrugada de insônia. Trazia nas mãos um caderninho de notas, um celular e uma folha com sete perguntas. Respondi todas em uma conversa breve que acabou sendo publicada, dois dias depois, em um jornal local.

Lembro que na época eu quis agradecê-la pela entrevista e o interesse em saber o que me leva a escrever ficção, mas não encontrei rastro dela. Por isso foi uma alegre surpresa acordar neste domingo ensolarado e vê-la, quase seis anos depois, na cozinha de minha nova morada: estava sem o caderninho de notas, mas cheia de perguntas sobre a vida, meu retorno à terrinha e as impressões de quem chega após um par de anos fora.

Sirvo o café, a tapioca com manteiga e aviso: “Impossível responder tudo agora. Podemos ficar, por hoje, apenas com uma pergunta?”. Ela concorda comigo. Sentamos, então, na área de serviço do apartamento. Explico que é um dos lugares da casa que mais tem me fascinado, pois é dele que avisto os telhados, os prédios que começam a rasgar o céu acreano, a entrada do Papouco. Tomo, aliás, o exemplo desse tradicional bairro para começar a responder à curiosidade de Amanda: Quais suas primeiras impressões sobre a cidade?

Começo fazendo uma confissão: a de que estranhei a ausência, no semáforo em frente ao Papouco, daquelas que eram as rainhas da noite e do lugar. Dito isso, contei-lhe sobre o aperto no peito com certo vazio nas ruas no centro. A saudade dos ambulantes vendendo seus brebotes no entorno dos órgãos públicos, do povo sentado na murada que fica em frente ao Palácio das Secretarias, do ir e vir colorido das gentes entre a Praça da Revolução, o Palácio Rio Branco, a beira do rio.

Há algo de triste nesse esvaziamento. É como um veneno ministrado a conta-gotas no coração da capital, e que promete enterrar nas duas margens do rio as nossas melhores lembranças.  “É a crise”, justifica Amanda. E emenda: “Isso sem falar na violência. Ninguém anda mais tranquilo pelas ruas da cidade”.

Ah, como é triste sentir esse bocado de errância ameaçado! E falo pensando não somente no hábito comezinho que guardo de me perder pelas ruas até encontrar a calma e a clareza. Mas também no que julgo ser uma herança de varadouros: andar por Rio Branco como quem percorre caminhos conhecidos da floresta.

Amanda não sabe, mas a conversa me faz ser tomada pelo saudosismo. Lembro-me do quanto era bom caminhar no Parque da Maternidade. Ou levar as meninas na boca da noite pra passear por lá e ficar sentada num banquinho pensando na vida enquanto observava a alegria das crianças, os ciclistas, os casais de mãos dadas, os estudantes comprando pipoca. E também como às sextas-feiras eu cruzava a ponte pra tomar uma gelada com amigos na Gameleira, ou como ia caminhando de noitinha, do Bosque ao Mercado Público, para ouvir música ao vivo no palco ali construído.

Talvez seja resultado do tempo, esse construtor de memórias, mas a verdade é que me custa aceitar a ideia de que nos estão roubando as ruas. “Ih, nessa região daqui é complicado você sair a pé quando escurece”. Amanda refere-se ao lugar que escolhemos para morar. Esse que está cravado naquela que sempre foi uma das principais artérias da cidade e que povoa muitas de minhas lembranças afetivas.

Fico ouvindo a moça e seus temores enquanto o café esfria. Buscando, nas notícias que me dá sobre o cotidiano, identificar o tamanho da estrada que separa a minha cidade desta pintada de sombras, silêncios e desertos.

Quis dizer-lhe, ao final, do quanto seria bonito como um poema se nos juntássemos para abraçar Rio Branco. Abraçar, na luz do dia e na boca da noite, suas avenidas, os bancos de praça, os parques, a beira do rio. Se nos uníssemos e tomássemos as ruas. Porque é lá, e não entre concertinas e salas climatizadas, que pulsam o coração e a verdadeira alma acreana.

Mas a prosa tinha se estendido mais do que o previsto. E a noite, essa antes gentil senhora, chegava trazendo com ela o invisível bilhete de partida.

P.S. Em 27 de outubro de 2011 lancei, no Casarão, o livro de crônicas Indagações de Ameixas. Lembro que na época recebi em casa uma amiga jornalista que fez uma longa e nunca publicada entrevista comigo. Foi esse silêncio que inspirou a Amanda Escócio, personagem que criei na ocasião e que volta agora graças a minha atual (e espero que momentânea) dificuldade de parir uma crônica decente. 

 

Vássia Silveira –  é uma história em construção. Trabalha com jornalismo, escreve crônicas, poesia, pinta nas horas vagas e recentemente descobriu as dores e delícias da tradução literária. É autora dos livros Febre Terçã (2014), Indagações de Ameixas (2011), Quem tem medo do mapinguari? (2008) e Braboletas e ciuminsetos (2007). Integra a antologia Blasfêmeas: mulheres de palavra (2016) e escreve, quando a vida permite, o blog Toda Quinta.

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