Em busca de profundidade

Veriana Ribeiro

Outro dia decidi ver um filme na Netflix. Mas em meio a tantos títulos, me peguei desinteressada por aquele conteúdo rápido, fácil e vazio. Eu não queria ver uma comédia americana que esqueceria em menos de uma hora, ou um drama com os atores de sempre fazendo os papéis de sempre. Não, eu queria o olhar esperançoso de Virginia Cherrill em “Luzes da Cidade”, a mudança de expressão de Dustin Hoffman e Katharine Ross em “A Primeira Noite de um Homem”, as conversas filosóficas de “Acossado” ou o final dilacerante de “Chinatown”.

O mesmo caso aconteceu quando fui a um sebo em Brasília. Entre tantos títulos, romances água com açúcar (que sou viciada) e best-sellers de superação feitos pra te fazer chorar, me peguei olhando a prateleira de clássicos pensando se conseguiria ter a disciplina de ler um desses livros. Parece que quanto mais tempo eu passo nas redes sociais, menos tenho concentração pra ler algo que exija um pouco mais que 140 caracteres. Os sentimentos e pensamentos precisam estar mastigados, prontos para o consumo imediato, ou então, não servem.

Saí de lá com um livro da Eliane Brum, que não mastiga nem suas colunas semanais no El País, com textos enormes e difíceis de ler na era da informação rápida, mas um deleite para a os pensadores críticos. Ainda assim, peguei um livro de crônicas que pudesse ler em pedaços, pílulas que não cansassem minha mente tão padronizada pelas redes sociais. Ainda estou na metade.

Talvez esteja na hora de mudar.

Meu corpo e minha mente dizem isso. Imploram.

Não sentem mais o mesmo prazer ao ficar horas nas redes sociais. Cansaram do facebook, instagram, twitter, snapchat, stories, youtube…

Até os portais de notícias não me apetecem, sempre com as variações das mesmas pautas. O problema no transporte público, um assassinato, um roubo, um feminicídio, um político se safando de corrupção, outro sendo preso, alguém fazendo uma delação bombástica, mais um decreto do Temer que vai deixar as coisas piores e no final uma super matéria cultural e os gols da rodada, pra gente ficar um pouco feliz.

Acho que meu corpo pede um pouco mais de calma. Não sei se é a chegada do aniversário de 28 anos e a volta de Saturno, mas tenho desejado mais a lentidão. Filmes que me deixem com aquele formigamento no fundo da cabeça e não o último lançamento da Netflix (que, vamos combinar, já teve momentos melhores). Livros que me façam parar o tempo, imaginar, voar… E não esses romances fast food. Não é como um “Metamorfose”, que li há dez anos e ainda é um dos livros mais instigantes que tive o prazer de colocar em minhas mãos. Ou “A Redoma de Vidro” que mesmo depois de dois anos, ainda me faz pensar sobre minha própria vida e como está ligada à de Sylvia Plath. Como estão todas as mulheres.

Acho que nessa era das informações instantâneas, o que eu procuro é um pouco mais de profundidade. A certeza que não sou uma pessoa rasa, presa aos bytes do computador. Que sou alguém sempre prestes a transbordar.

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