A história de todas as mulheres

Veriana Ribeiro

Eu tinha treze anos quando uma amiga me contou que um homem tinha se masturbado ao seu lado no ônibus. “Ele estava com uma bolsa em cima da perna, mas eu percebi que ele não parava de mexer no pinto”. Naquela época, eu quase não andava de ônibus. Minha mãe morria de medo de me deixar usar sozinha o transporte público – uma preocupação que ela nunca demonstrou com o meu irmão, exatamente por saber que ele dificilmente passaria por uma situação como essa. Até hoje essa história, que minha amiga viveu, me assombra como se fosse minha. E me ensinou, desde cedo, que eu devo ter medo dos espaços públicos.

É por isso que eu sempre fico insegura quando sento ao lado de homens no transporte público. Infelizmente, é impossível distinguir quem poderá ou não causar esse tipo de abuso. Não existe um perfil para abusador. Ele pode ser branco, negro, alto, baixo, gordo, magro. A gente nunca sabe, então toda vez que sentamos ao lado de um homem, estamos fazendo uma aposta imaginária, um voto de confiança que aquela pessoa não irá nos fazer mal. Algumas vezes, perdemos essa aposta.

Mas a verdade é que é cansativo ficar imaginando o tempo todo o que poderá ou não acontecer. E temer que algo aconteça. O tempo todo. Na festa, no ônibus, no táxi, na rua, no trabalho, na casa de amigos, na própria casa… Nenhum lugar é totalmente seguro para as mulheres. E é simplesmente cansativo viver assim, com esse medo constante.

Os homens não sabem o que é isso.

É um medo que vai sendo construído a cada experiência negativa, a cada abuso, a cada assobio na rua, a cada olhar lascivo, a cada memória que vai se acumulando em nossa história. E a memória de outras mulheres, que vamos tomando como nossas. Como a história da minha amiga, ou da garota que sofreu um abuso no ônibus em São Paulo, em que um homem ejaculou nela e foi solto em menos de 24h, mesmo tendo diversos casos semelhantes na justiça. O juiz não considerou o que ocorreu um ato de constrangimento, nem que este homem seja perigoso para a sociedade.

Para meu alívio, a indignação pelo caso aconteceu de todos os lados. “É um absurdo um homem desse não ter sido preso”, “como pode isso não ser considerado um ato constrangedor?”, “como o juiz pode ter tomado esse decisão?” foram comentários que circularam por toda a internet. E logo, as pessoas começaram a bradar por castração química pro abusador, como se ele fosse um problema isolado que poderia ser eliminado. Mas não é.

Ele é um abusador? Sim. Ele deveria pagar pelos seus crimes? Com certeza. A lei não pode mais ser branda com casos de abuso? Definitivamente. Mas ele não é o único problema, é apenas o sintoma de uma doença muito pior, de uma sociedade machista. O fato dele sair livre apenas evidencia algo que é mais do que claro para as mulheres: as leis não estão do nosso lado. Nem para proteger os nossos corpos de abusos, nem para dar autonomia a esses corpos. Tratá-lo como um doente ou maníaco apenas exime a sociedade de lutar por um mundo mais justo para as mulheres, em que elas sintam-se seguras nos espaços públicos.

Faz com que outros homens – que também praticam abuso, mas nunca se masturbaram em um ônibus – sintam-se bem em não serem assim. “Viu, eu não sou desse jeito”. Não, não é. Mas tuas piadas diminuindo mulheres, a forma como trata suas companheiras, a “cantada” no meio da rua, o fato de sempre questionar o que a mulher estava vestindo, tudo isso contribuiu para que alguns homens achem que é ok abusar de mulheres em ônibus. Alguns que são muitos. O abuso em transportes públicos é tão comum que foi necessário criar espaços exclusivos para mulheres em metrôs, simplesmente porque tendo a oportunidade, muitos homens se aproveitam do horário de pico para usar aquelas “mãos bobas” ou “se esfregarem” e talvez dar aquela “encoxadinha inocente”. Isso também é abuso, mas todo mundo diminui. Só porque não teve ejaculação.

Se o problema fosse apenas um homem, eu não ficaria com medo cada vez que entrasse em um transporte público, ou andasse na rua, ou estivesse sozinha em um bar.

Esse homem não é um doente que precisa ser castrado porque que não consegue ter controle sobre o próprio pinto. Ele é apenas mais um machista, entre tantos outros, que acredita que o corpo da mulher não é de direito dela. Que ela está ali para o prazer do homem. Se formos castrar todos os homens que pensam assim, a raça humana estaria em risco de extinção.

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