Um abraço kuntanawa

Antonio Alves

Fui a uma apresentação de Nokun Txai, uma série de documentários para TV, bonito trabalho feito pela equipe liderada por Sérgio Carvalho para contar a história e mostrar a vida das comunidades indígenas nos interiores do Acre. O público era restrito: artistas, produtores, pessoal de cinema e alguns convidados muito especiais, os próprios indígenas retratados em alguns episódios da série. Entre eles, um amigo que fui rever com emoção, Milton Gomes da Conceição Kuntanawa.

Primeiro na tela, no filme “Mariana e Milton”, depois um abraço no intervalo, lembrança dos amigos e notícias do rio Juruá e suas histórias de tantas curvas e tantas viagens. Na tela, como estão agora Seu Milton e Dona Mariana, idosos, saúde frágil, numa casinha de madeira no meio de uma daquelas ladeiras da cidade de Cruzeiro do Sul, que só de olhar já cansa. Na conversa, a memória de tempos idos e a esperança de tempos que virão, melhores sempre, para a grande família que segue crescendo.

Conheci Seu Milton em 1989, era um dos organizadores da Associação dos Seringueiros do Rio Tejo, um afluente do Juruá que era conhecido como “o rio da borracha” e onde viviam centenas de famílias extrativistas que viviam na escravidão do regime de aviamento. Seu Milton era um remanescente do povo Neanawa, casado com D. Mariana, filha de Regina, índia Kuntanawa capturada numa aldeia do rio Envira nos tempos das correrias em que esses povos foram dizimados e dados por extintos.

As sementes brotaram, entretanto, mesmo sufocadas sob o domínio seringalista. “Os caboclos do Milton” formavam a família mais numerosa do rio Tejo, chamados também de “os Milton” -denominação que acabou virando o título de um livro da antropóloga Mariana Pantoja, que narra a saga daquele povo. De tanto serem tratados com preconceito por alguns cariús da vila Restauração, que ajudaram a construir, resolveram assumir a identidade indígena Kuntanawa, afastaram-se do povoado, juntaram-se num conjunto de antigas colocações de seringa às margens do Tejo e lutam pela demarcação de sua terra.

Depois da viagem de 1989, passei a subir o rio Tejo todos os anos. Fiz amizade com a família de seu Milton e era na sua casa ou de seus filhos em que atava minha rede. Com eles fazia ayahuasca para tomar nas noites enluaradas e estreladas da floresta. Deles ouvi as histórias mais tristes e belas, engraçadas e comoventes, dos tempos antigos do seringal. Os mistérios das plantas e dos animais. O encantados e os invisíveis. Os perigos e as maravilhas. O centro e a margem. A boa farinha, o bom tabaco, o peixe moqueado.

Na cozinha da casa de madeira e paxiúba, coberta de palha, Dona Mariana juntava as netas para raspar o cocão, uma versão rústica do que no nordeste chamam de babaçu. Com ele faziam óleo de cozinha e muitos outros produtos. Só muito tempo depois vim saber que na língua Pano o nome do cocão é kuntá, o fruto da palmeira totêmica do povo Kuntanawa. Eu, cariú ignorante, enchia a pança com a carne do caititu bem assada, mas alimentava a alma com um banquete ainda maior.

Uma noite, depois de cantigas e mirações, Seu Milton foi para a cozinha preparar um chá de folhas de laranjeira. E me disse que numa noite anterior tinha aprendido uma lição sobre como devia preparar aquele chá. Foi na hora em que estava, distraidamente, tirando as folhas de um galho e ouviu uma voz perguntar: “quem lhe deu licença?”. Parou, desconfiado, e quis saber qual licença tinha que obter. A voz continuou: “pra tirar as folhas de uma planta, você precisa pedir licença”. E explicou que todos os seres vivos tem dono, tem pai e mãe, tem alguém protegendo. Na floresta, precisa pedir licença pra tudo. Obtendo a licença, obtém também a proteção e os benefícios para a sua saúde. Sem pedir licença, está sujeito a sofrer alguma coisa.

São muitas as histórias que ouvi daquele povo. Estão todas no coração. Algumas foram escritas em páginas várias ao longo do caminho, outras foram contadas em áudio e vídeo achados ou perdidos nas prateleiras do tempo. O que conseguir encontrar, vou mostrar de novo e mais uma vez. Minha gratidão eterna aos velhos amigos dos altos rios quero demonstrar enquanto tiver voz. Um dia vou me calar, que esse dia chega pra todo mundo. Mas não vou esquecer.

Carregarei minha ubá com lembranças que levarei rio abaixo e mar adentro.

Fotos extraídas do blog aflora, de Mariana Pantoja.

 
 
 

Política Zero

2 thoughts on “Um abraço kuntanawa

  1. Valeu Toinho, a boa conversa dos velhos amigos do Tejo. Agora tô indo mais pra perto, pra Cruzeiro, voltando as raízes, vizinha de seu Milton e dona Mariana – mas, rapaz!

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