Poesia contra a opressão

“Na montagem, sem massagem na mensagem. Slam Resistência!”

Veriana Ribeiro

É  com esse grito de guerra que a Praça Roosevelt se enche de revolta, política e poesia. A escadaria fica lotada de pessoas, que vieram de várias partes da cidade para prestigiar as apresentações de Slam. Para quem não conhece, a Poetry Slam (traduzido literalmente do inglês, “batida de poesia”) é uma competição em que poetas leem ou recitam um trabalho original. Eles não podem usar objetos cênicos ou instrumentos musicais.

Foi criado nos anos 1980, em Chicago, nos Estados Unidos, e difundiu-se pelo mundo, chegando ao Brasil em meados dos anos 2000. No Slam, as performances são julgadas por membros selecionados da platéia ou por uma comissão de jurados, que dão notas de zero a dez. Retira-se sempre a melhor e a pior nota, mantendo as três notas do meio. Dessa forma, a maior nota que uma pessoa pode tirar é trinta, e a menor é zero.

A primeira referência ao Slam que vi foi no livro Slammed, de Colleen Hoover (traduzido no Brasil como Métrica). Ele conta a história de Layken, de 18 anos, uma estudante que torna-se o suporte de sua família após a morte do pai. Ela se apaixona pelo vizinho, de 21 anos, que a apresenta ao Slam. É através da poesia que os dois personagens vão encontrando formas de se expressarem em um relacionamento que parece destinado a não acontecer.

Após ler o livro fiquei tão interessada pelo estilo de poesia e sai procurando tudo que era página no facebook com vídeos de poesia falada, e foi assim que esbarrei no Slam Resistência, que acontece toda primeira segunda-feira do mês, na Praça Roosevelt, apresentada por Del Chaves e Celso Jamelo. Na maioria das vezes, os temas giram em torno das diversas formas de opressão da sociedade. Os vídeos já são famosos na internet.

Aproveitei que estou em São Paulo e desbravei a região com meu google maps em mãos, em busca da tal Praça Roosevelt, famosa pelos encontros. Fui cheia de expectativas, mas acho que nenhum vídeo poderia ter me preparado para minha primeira competição de Slam. Na praça, a poesia é de fato um grito de resistência. Contra o racismo, o preconceito, a pobreza, a polícia (que, enquanto os jovens faziam poesia, circulava pela praça dando bacu em quem estivesse afastado da movimentação), os políticos, a corrupção, as injustiças, o machismo, a depressão. Contra tudo que nos oprime nesta sociedade tão doente em que vivemos, mas a que resistimos. Mas não é apenas um grito dos poetas, mas de todos que estão ali sentados, ouvindo, aplaudindo e/ou dando notas. É impossível não se deixar levar, vibrar, torcer ou se emocionar.

Entre uma apresentação e outra, conversei brevemente com Mariana Felix, que estava lançando “Vício”, o seu quarto livro de poesia. “A primeira vez que o Chaves chamou a gente pra vir, deu umas 10 pessoas. Ficávamos falando poesia uns pros outros”, ela conta. Quase não dá pra acreditar, vendo todas aquelas pessoas amontoadas, tentando ver os poetas. Ao mesmo tempo, ela estimula: “Vocês deveriam levar o Slam para o Acre. Tem que difundir!”.

Naquela noite, o movimento estava implementando pela primeira vez a paridade: iriam se apresentar o mesmo número de homens e mulheres durante a noite. A escolha é feita através de sorteio. “Quem se identificar como mulher, coloca seu nome no copo preto. Quem se identificar como homem, no vermelho. Vai da pessoa. Essa foi uma luta nossa, das mulheres. Como a diferença é muito grande entre homens e mulheres que querem se apresentar, muitas vezes eram sorteadas apenas uma, duas mulheres durante a noite”, explica. No meio da conversa, alguém chama a autora, querendo comprar um dos livros. Ela vai, mas deixa a força de suas palavras.

Meus amigos me chamam no canto. Já tá tarde, é preciso ir embora. A gente ainda vai acompanhar uma das meninas até em casa, depois pegar o metrô. O tempo e a cidade urgem. Vamos sem ver o final da competição, mas com a certeza que resistir é preciso – só que é muito melhor com poesia.

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