O remédio amargo

Antonio Alves

A  derrota dói, qualquer derrota. No xadrez, como na vida, dói mais para aqueles que tem consciência de que a responsabilidade é toda sua, pessoal, intransferível. Não foi porque o companheiro errou ou porque o juiz roubou, nem porque o patrão estava de mau humor, o pneu furou, a ligação caiu, o signo não combinava… nada. A responsabilidade foi toda minha e de mais ninguém. Eu, o incompetente, burro, que não vi o óbvio e estraguei tudo: o trabalho, o relacionamento, a viagem, a vida.

Mas sempre tem um jeito, não é mesmo? Posso pedir perdão, uma nova chance, prometer que daqui pra frente vou mudar… Pois o xadrez ensina que peça tocada é peça jogada. O lance não volta, nem o tempo. Por isso, olho mais uma vez a paisagem devastada do tabuleiro onde meus peões, desalinhados como uma tropa cansada e faminta, já não conseguem resistir, detenho o relógio e estendo a mão cumprimentando o adversário, assino a planilha e recosto-me na cadeira com um profundo e desolado suspiro.

Foi na segunda rodada do Torneio Regional Norte, em Manaus, após três horas e meia de uma partida sofrida, contra o MF Andrey Neves. Os amigos torciam no whatsapp: o campeão do Acre contra o campeão do Amazonas, grande embate. Não acho que tenha jogado como um campeão. Tomei algumas decisões equivocadas, que um adversário forte como Andrey não deixaria passar sem castigo.

Começou na abertura, em que escolhi uma linha inferior tão somente para não entrar numa variante que ele tinha preparado e  conhecia muito bem. Preferi navegar em águas desconhecidas para ambos. Quase deu certo. O “quase” extinguiu-se no final, pois ao invés de entregar um peão indefeso e me apressar para colocar meu Rei em lugar seguro, decidi ficar sustentando o peão e meu rei entrou de mãos atadas no caminho da guilhotina. Triste.

Agora é rever a partida e examinar as causas das decisões erradas. Para isso me serve o xadrez, como exercício intenso e severo de auto-conhecimento e humildade. Sinceramente, não troco minhas derrotas mais doloridas por algumas vitórias fáceis que vejo por aí, mundo afora. Algumas se transformam depois em derrotas humilhantes: no jogo da política, por exemplo, vemos uma porção de vencedores fanfarrões indo de mãos atadas para a cadeia.

Não vou ficar triste, portanto, de que minha primeira partida publicada em caissa-me seja uma derrota. Coloco-a aos pés da musa com um pedido de desculpas pelos erros, congratulações ao adversário que soube aproveitá-los e a esperança de aprender com eles para jogar melhor nas 5 rodadas que ainda restam no torneio.

P.S.: Na partida da primeira rodada venci a jovem amazonense Jullie Emanuelle, que tinha um empate nas mãos e cometeu um erro terrível que resultou em xeque-mate. Como diz um dos melhores enxadristas da atualidade, o armênio Levon Aronian, “as melhores vitórias são as imerecidas”. Ironia dele, fique bem entendido, e também minha, que prefiro as vitórias arrancadas com esforço e brilho.

 

 

Política Zero

 

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