Crítica: Como Nossos Pais

Veriana Ribeiro

Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo

Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa

Sentada no escuro da sala de cinema, assistindo Como Nossos Pais, o novo filme de Laís Bodanzky, vejo a história da protagonista se confundir com as minhas memórias. Em certos momentos sou Rosa, questionando o machismo à sua volta, procurando seu lugar no mundo e em embates com a própria mãe. Em outros, Rosa é minha mãe. Não a mãe idealizada como heroína ou como vilã (dependendo da fase da vida), mas a mãe que ela era, com as mesmas angústias, medos e inseguranças mostradas no filme, dramas que eu não era capaz de entender ou identificar na infância/adolescência, mas que agora parecem tão meus no começo da vida adulta.

Rosa também se confunde com a história da mãe e parece destinada a revivê-la, seja nas relações amorosas, com o marido Dado e o amante Pedro, ou com as próprias filhas, que estão cada vez mais questionando sua autoridade.O romance com Pedro acaba sendo apenas uma forma dela fazer as pazes com o passado, revivendo-o no presente.

Vencedor de seis Kikitos na 45ª edição do Festival de Cinema de Gramado, Como Nossos Pais começa com um almoço de família na casa de Cecília, mãe da protagonista. A câmera distante, mostra a família de longe, entre portas e paredes. Os homens sentados, enquanto as mulheres arrumam a mesa. Demora para entrar naquela vida, tão normal, tão pacata. Mas assim que a câmera se aproxima dos seus personagens, já mostra os conflitos entre eles. Principalmente entre Rosa, Cecilia e Dado.

No almoço, Rosa tem uma descoberta: Homero, o homem que a criou e que ela idealiza, não é seu pai biológico. Logo descobrimos que Cecilia também tem uma doença terminal. O mundo de Rosa, que já era frágil, desmorona. Além disso, ela precisa cuidar das filhas, lidar com os problemas no casamento e a insatisfação no trabalho.

Muitas coisas para uma pessoa só e muitos temas para um único filme. Este acaba sendo um dos poucos defeitos do longa-metragem, é impossível dar conta de tudo. Algum assuntos ficam prejudicados e são tratados de forma superficial, como a carreira de Rosa ou a relação dela com o pai biológico. O próprio conflito conjugal poderia ter ido além do dilema da supermulher contra o marido desleixado, mesmo sabendo que a trama encontra suporte na realidade. Não é assim, de fato, que as coisas são?

A verdade é que não precisamos ouvir Rosa falando sobre suas angústias como uma mulher contemporânea ou as diferenças de gênero no casamento, estamos vendo isso em tela, e de uma forma muito mais bonita. Toda vez que o filme tenta mostrar sua ideologia, claramente feminista, acaba perdendo a naturalidade. E é muito mais simbólico ver o leite transbordando na panela durante uma discussão entre Rosa e a filha, do que ouvi-la explicar essa mesma briga para a mãe. É o medo de não se fazer entender pelas imagens, quando elas já dizem tudo.

Mesmo com esses pontuais problemas, Laís Bodanzky se sobressai na direção. Cada detalhe é minimamente calculado para contar a história e mostrar os sentimentos de Rosa. Os planos-detalhes que mostram a protagonista sempre em pedaços quando está confusa; a diferença entre o quarto das filhas (decorado, confortável, acolhedor) e do casal (branco, minimalista, frio); a montagem que sabe deixar cada momento ainda mais emblemático, seja um leite derramando, um cigarro no cinzeiro ou uma música no piano.

É refrescante ter uma protagonista tão real em tela. Uma história que fale para as mulheres e que por elas sejam entendidas. Todas somos um pouco Rosa, e é catártico se ver, se sentir, se entender. É como tirar a blusa no meio da rua em uma tarde quente, ou levar as filhas para escola de bicicleta. É regar as plantas e aceitar que podemos ser como nossos pais, e ainda assim, encontrar nisso a liberdade para sermos nós mesmas.

E hoje eu sei, eu sei
Que quem me deu a ideia
De uma nova consciência
E juventude
Está em casa
Guardado por Deus
Contando o seus metais

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais

 

 

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