O valor inexato

Antonio Alves

Nos distantes anos 70 e 80, depois de Deleuze, a filosofia explodiu em mil pedaços e -não sei se como causa ou consequência- surgiram dúzias de filósofos na França que lançaram verdadeiros best-sellers sobre tudo quanto é assunto que se possa imaginar. Lembro que, naqueles tempos, fiquei sabendo de um livro, cujo título traduzido para o português seria “A Fadiga”. A notícia era de que o autor tinha ficado dias sem dormir ou caminhado durante várias horas, entre outros esforços além dos limites normais para entrar num estado de extremo cansaço e observar os processos mentais e emocionais que lhe ocorriam nestas ocasiões.

Achei muito interessante a idéia do francês, cujo nome não lembro, e muitas vezes tive vontade de ler o livro ao observar os interessantes efeitos da fadiga nas muitas situações de intenso esforço físico e mental que vivi. Por exemplo, depois de oito horas empurrando uma canoa num rio muito seco, sob um sol equatorial, alimentado apenas com um punhado de farinha, lembro-me de ter distinguido, entre os muitos delírios em minha cabeça, um pensamento mais ou menos assim: “gostaria de ler o livro daquele francês agora, numa rede atada à sombra das árvores e uma jarra com água de côco gelada ao lado”.

Mas nem tudo que vem à mente, nesses momentos, é desejo de sair do desconforto. Há distorções na percepção, pensamentos inusitados, insights, delírios, tudo com bons e maus resultados: tanto se pode alcançar altos níveis de criatividade quanto um colapso. A capacidade de manejar, administrar e até aproveitar essas viagens pelos limites é a origem de boa parte da arte e da ciência nas civilizações de todos os tempos.

Sim, as sociedades e civilizações também sentem fadiga. É possível perceber claramente, por exemplo, que esse “ser” indefinível chamado Brasil está vivendo uma enorme fadiga, especialmente com tudo o que envolve o sistema político. Do stress à depressão, da psicopatia à idiotia, tudo o que é doença e perturbação cresce, se multiplica e ainda ganha fama, com manchetes na mídia e replicação industrial na internet.

Na civilização enlouquecida, as percepções tranquilas e comuns parecem alienação -como se a pessoa não estivesse enxergando o mundo ao redor, pois a realidade, todos sabem, “é pauleira, brother”. Da mesma forma, a ofensa direta e sectária, o discurso das fobias, o berro irracional, são formas de expressão da “verdade” pois, mais uma vez todos sabem, que a reflexão ponderada e a palavra poética são fraquezas, incapazes de se impor à força.

Bem, esse é meu “diagnóstico”. Não me atrevo a dizer que é totalmente correto, é apenas uma percepção geral. Mas peço que considerem, por um momento, essa hipótese: no estado de extrema fadiga coletiva em que vivemos, podemos estar compartilhando um mundo que talvez não seja exatamente assim. A verdade que construímos pode não ser verdadeira e nossa realidade pode não ser real.

Se nos deixarmos ficar, por um momento breve que seja, nesse “pode ser ou não ser”, estaremos aproveitando o delírio da fadiga para gerar um pouco mais de liberdade e criatividade. Liberdade das cadeias mentais formadas por pensamentos repetitivos, criatividade para inventar novas formas fora dos padrões dominantes. Dá algum resultado, isso? Não sei. Se hoje eu não encontrar ao menos três pessoas que comprem minha produção, não vou levar pão e leite para alimentar minhas crianças, isso me parece inapelavelmente real e difícil de mudar.

Minhas teorias devem ter, portanto, algum limite ou ponto falho, por isso tenho que rever as análises e refazer os cálculos constantemente. E tenho a imperiosa necessidade deixar portas e janelas abertas para que a fé e a esperança possam vir em meu socorro e não me falte o ar para respirar, se possível com o perfume de algumas flores.

E por que me veio agora essa percepção, que modestamente chamo de hipótese? Pelos efeitos da já referida fadiga obtida em uma viagem a Manaus, com breve parada, na volta, em Porto Velho, longas noites em aeroportos e aviões, ônibus e rodoviárias, quartos de hotel climatizados e ruas escaldantes, salas de reunião e trabalho mas, principalmente, horas de intenso esforço mental na disputa das partidas do Torneio Regional Norte de Xadrez. Quem não sabe o que é passar quatro horas concentrado numa partida tensa e emocionante, caminhando na fronteira entre a vitória consagradora e a derrota deprimente, não sabe o cansaço que sobrevêm depois, seja qual for o resultado.

Terminei num honroso 5º lugar, com cinco vitórias e duas derrotas -justamente para o campeão e o vice, os dois Mestres Fide Renan Reis e Andrey Neves. Considerando a força dos competidores e as dificuldades da jornada, foi um bom resultado, que me acrescentou 50 pontos no ranking internacional e um prêmio de 200 reais que paga uma mínima parte das despesas e demonstra que os enxadristas brasileiros estão longe do reconhecimento das multidões e dos patrocinadores.  Ainda assim, foi realmente muito bom encontrar velhos amigos e fazer novos, jogar partidas boas e cheias de idéias táticas e estratégicas interessantes, e ficar muito, muitíssimo cansado a ponto de fazer viagens filosóficas aos tempos de minha quase distante juventude.

Eis a origem de minhas reflexões: percebi que o cálculo aparentemente lógico e matemático do xadrez é, na realidade e na verdade, uma expressão direta das emoções e percepções. O lance é mais sentido do que pensado. A razão é pura emoção.

Andrey Neves disse que o GM Rafael Leitão recomenda que não se olhe as partidas no computador durante os torneios, pois os cálculos exatos da máquina mostram a quantidade enorme de erros e imprecisões que cometemos e isso pode nos deprimir, com queda imediata na autoconfiança e no desempenho. Então, para jogar bem, temos que estar iludidos? Não exatamente, acontece que não estamos -felizmente!- jogando contra computadores, mas contra outros seres humanos que também são imperfeitos e imprecisos. “No xadrez, perde quem comete o penúltimo erro”, dizia um antigo mestre.

A partida que mais gostei de jogar foi a última, em que meu ataque -friamente dado como incorreto pelos computadores- tem intensidade tal que colocou ao meu adversário a difícil tarefa de encontrar os lances corretos em meio ao perigo, sob pressão e com pouco tempo para pensar. A vitória foi o prêmio para a ousadia, como o Novo Mundo é o destino do navegante que se lança ao mar desconhecido.

Também na vida, no mundo mundano em que derramamos nosso suor para ganhar o pão de cada dia, a imperfeição e a imprecisão são as portas e janelas abertas dos seres humanos, por isso falíveis, por isso necessitados, por isso dignos e merecedores da misericórdia divina que lhes dê ar para respirar e as descobertas de alguma arte, alguma ciência. Caíssa-nos, ó deusa!

 

 

 

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