Passeio Descalço no Asfalto Frio

João Veras

Tentei andar pelas ruas de rio branco
numa noite do ano de dois mil e dezessete.
Não consegui.
Tantas cabeças cortadas rolando pelo asfalto
Elas ultrapassavam a velocidade
dos muros da força tarefa. E sorriam!
Dado o sinal,
imóvel, eu vagabundo!
Mãos para o alto.
Mira, caça, raça das ordens.
O desespero apontava uma arma pra mim
Queria tudo!
Dos meus bolsos foram os sonhos amassados.
De quebra, fui obrigado a doar minha lembrança
Levada com braço e tudo.
De longe, ainda vi a fumaça. Tudo queimando.
Rumo a casa de carona
era uma cauda de cometa
num céu que ainda se mantém.
Agora na janela do mundo
o que resta da vida
apenas uma denúncia – para ninguém –
de um presente da cidade que não existe.
Quem há de acreditar?

 

 

 

Política Zero

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