O reencontro da Filomedusa

Veriana Ribeiro

A primeira vez que assisti um show da banda Filomedusa foi no bar Flutuante, em 2007. Na época, eu era uma caloura universitária que começava a frequentar a cena cultural de Rio Branco. O rio começava a encher e dava medo de descer as escadarias de madeira para chegar ao bar ancorado na margem. A voz delicada de Carol Freitas ecoava pelo barco de madeira, sua presença preenchia o pequeno palco no mesmo nível que o público. Ela era pequena e leve, com uma voz potente e suave de MPB, em contraponto com a banda, que tinha um som pesado, um rock’n’roll de garagem típico dos anos 2000.

Na época, além de realizar festas de forró e sertanejo, o Flutuante também era palco do projeto No Balanço da Catraia, evento cultural produzido pelo Coletivo Catraia que levava pop rock autoral para a beira do rio. Bandas como Nicles, Blush Azul, Calango Smith, Capuccino Jack, Los Porongas e Camundogs se apresentaram no local e a cena musical em Rio Branco era efervescente. Eu vivi de perto essa época, ao trabalhar no Coletivo Catraia em 2008. A Filomedusa fazia parte deste cenário e, em meio a tantas bandas, se destacava com músicas potentes como “Levante”, “Baixaria” e “Batcaverna”.

Dez anos depois, o grupo se reencontra no mesmo lugar em um show especial nesta sexta-feira (15), que conta ainda com pré-show de Duda Modesto e discotecagem das Djs Malu e Cau Bartholo. Os ingressos podem ser comprados antecipadamente na Discardoso. O último lote, que será vendido na portaria, custa R$ 40.

Banda Filomedusa completa dez anos. Foto por Renato Reis.

Phyllomedusa bicolor

A rã encontrada na Amazônia, também conhecida como Kambô é famosa devido a “Vacina do Sapo”. O procedimento é realizado por xamãs indígenas ou curandeiros, visa acabar com a má sorte na pesca e na caça, a “panema”, e também com o estado de espírito negativo que causa doenças. A banda pega emprestado o nome para firmar sua identidade: um grupo acreano, um som amazônico. Regional, e assim, universal.

O primeiro show aconteceu na casa de Alessandro Ferreira, em 2007. O espaço localizado no Cohab do Bosque depois ficaria conhecido como Loft Bar. Composta por Carol Freitas, Saulo Olimpio, Daniel Zen e Thiago Melo, a banda tocou nos eventos culturais em Rio Branco e fez uma turnê pelo Brasil, passando por cidades como Porto Velho, Cuiabá, Uberlândia, Belo Horizonte e São Paulo. A última apresentação foi no carnaval de 2013, durante o evento Grito Rock, no Casarão. Essa semana, os quatro se reencontraram depois de muito tempo separados.

“É como andar de bicicleta”, afirma a vocalista Carol Freitas. “Fazia tempo que os quatro não se viam. Já começou nisso, restabelecer o clima de caramadagem. Foi como se a gente nunca tivesse se separado, como se na semana anterior estivéssemos juntos. O vínculo de amizade não se dissipou. Com a música, na metade do ensaio já estávamos na mesma energia. Alguns acordes estavam esquecidos, erramos algumas letras, mas isso é o de menos. A sinergia da banda foi retomada com bastante rapidez”.

“Foi como andar de bicicleta”, disse Carol Freitas sobre o reencontro da banda.

As expectativas para o show desta sexta-feira são grandes, além de encontrar antigos fãs, eles esperam conhecer um público novo, que ainda não frequentava os eventos culturais da cidade na época em que a banda estava no auge. O tempo passou. Levou consigo coisas boas e ruins, mas deixou as memórias de uma época efervescente da cultura acreana. Daniel Zen, atual deputado estadual, abandona a política por alguns minutos para retomar a música. Thiago não é mais o adolescente tímido do ensino médio. Saulinho, um músico completo que toca na Descordantes, se consagrou durante os anos como um dos principais instrumentistas acreanos. E Carol sai de São Paulo, onde mora atualmente, para reencontrar sua casa, seus amigos, seus fãs, sua banda.

Mas a passagem do tempo não é apenas para eles. Também eu revejo a ingênua caloura universitária que era. O show é um encontro do passado com o presente. Uma noite que promete.

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