O que dizem sobre você

Antonio Alves

Conversa de whattsapp com o comandante zapatista aposentado Sub-Zero:

AA: E aí, ativo e operante?
SZ: Quem é?
AA: Alguém à procura de um stalker. Sub-Zero abandonou a luta?
SZ:  kkkk. Para você estar me procurando, coisa boa não é. O que anda fazendo?
AA: caissa-me.com, já viu? Envie um texto, faça um comentário, uma assinatura. Ao menos pague um café.
SZ: Vamos por partes: o texto já não é lido, sucumbiu à farra imagética e ao transe do selfie. Comentários são inúteis, foram deletados pelo hedonismo narcísico à espreita de matar toda diferença. Mas o café ainda posso pagar, qualquer hora dessas.
AA: Sua mensagem é publicável e pode ser usada contra você mesmo. E ainda vou querer o café.
SZ:  Tá valendo!

 
Pensei em escrever uma crônica, como aquelas dos jornais de antigamente, mas disseram que não ia adiantar, você não lê mais crônicas. Muito menos romances, aqueles livrões enormes… Afinal, literatura é coisa de quem não tem o que fazer e você, ah, você agora é uma pessoa muito ocupada e não tem tempo pra essas viagens. Vida agitada, sabe como é. Poesia? Não, isso é coisa de adolescente. Não que você tenha se tornado uma pessoa insensível, imagina, mas é que a vida anda difícil, há tanta violência no mundo, o trânsito tá uma porcaria, olha, uma hora pra andar 200 metros no centro da cidade ao sair do trabalho e tem uma porção de obrigações familiares e compromissos sociais e contas a pagar e aquela dor nas costas, claro, poesia não combina mesmo.

Porque nem música você escuta mais, disseram. Só a música ambiente, que essa é inevitável, sucesso gospel brega funk sertanejo, mas a sua música mesmo, aquela que toca no coração… já tocou, agora é só saudade. Cantar? Jamais, nem no banheiro. Que você perdeu a voz.

Um vídeo, talvez, no youtube. Melhor no facebook, disseram, que é agora o seu canal único de informação e relacionamento e participação política e alguma arte. Vídeo curtinho e engraçadinho, coisa pra descontrair. Mas você não gostava de cinema? Gostava, sim, disseram, no passado bem passado. Agora nada muito emocional, a não ser, eventualmente, algum vídeo motivacional -produtividade! competitividade!- e, claro, as mensagens de amor ao próximo que todo cristão tem o dever de compartilhar e distribuir vinte milhões de cópias, até mesmo porque se não fizer isso pode quebrar a corrente e passar duas eternidades e meia no inferno, além de quebrar a perna e contrair uma doença incurável. Vídeo curtinho, engraçadinho e superficial, disseram.

Que você agora é control-C e control-V do que o chefe manda, não adianta vir com história de pensar, questionar, refletir, isso é o que você recomenda para os outros, os imbecis que insistem em criticar sem fundamento e defender o indefensável, esse pessoal precisava fazer uma autocrítica. Você não faz mais, disseram. Mas antigamente você não vivia falando em quebrar paradigmas, revolucionar, mudar tudo? Sim, antigamente, disseram, mas é que houve uma inversão de valores e agora temos que ir com cuidado, devagar, pra não colocar em risco o que ainda resta.

Disseram que você não acredita em sonhos, que nem sonha mais. Que tenta agradar e servir a quem tem o poder de premiar tua objetividade, realismo, pragmatismo. Gente que reconhece o teu reconhecimento. Gente que te elogia porque você é -para ela- humilde e modesto e prestativo e discreto. E que você só fala mal de quem fala mal dessa gente.

Disseram que você se sente culpado, mas disfarça botando a culpa nos outros, no mundo, no sistema. Que você sabe que alguma coisa deu errado, mas não tem disposição para voltar atrás e começar de novo, que não abre mão do que adquiriu, que se acomodou. Disseram que você tem medo.

Não acreditei em nada do que disseram sobre você. Vou escrever aquela crônica, aguarde.

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