No coração do Brasil

Um país com nó nas tripas.
Antonio Alves

Semana ruim, essa que passou, com as cansativas confusões e insuportáveis personagens da “cena” brasileira -alguns acompanhados de suas irritantes claques- repetindo a náusea da repetição à náusea. Mas teve duas variações, ambas no formato ideal para a idiotia midiática: um grupo de militontos que se orgulha de ser “de direita” gritou contra uma exposição de arte, promovendo um linchamento com a acusação de “fazer apologia” à pedofilia, zoofilia e toda aquela conversa moralista de sempre e, pra eletrizar a platéia, um general do exército ameaçou o país com uma intervenção que já estaria, ele disse, sendo estudada e preparada faz tempo. Claro, teve também uma parte menos ruim, com as festivas manifestações de apoio aos índios e à conservação da Amazônia no palco do Rock in Rio, que não refrescam muito o calor do país nem elevam a qualidade das músicas do festival, mas, pelo menos, são “do bem”.

A cada segunda-feira uma nova pauta se abre em todos os coletivos do país, e todo mundo renova a disposição para a briga e o ânimo para dizer bobagens. Nos últimos anos, com uma nova novidade que se torna cada vez mais clara e evidente: o monstro está vivo e acordado. Cada um dá ao monstro o nome que quer, segundo sua preferência ideológica, cultural ou religiosa. Mas o que é fascismo, fundamentalismo, intolerância ou qualquer nome, se o significado se perdeu em meio à repetição e à superficialidade dos rótulos? Se tudo é palavrão, não há nome. Se não há nome, o conteúdo que se pretende nominar escapa. Livre e inominado, o monstro penetra em todas as frestas e coloca seus ovos em todos os cantinhos escuros de todas as almas.

Um vídeo tosco circula na internet, gravado com celular, com a cena de um bate-boca na rua. Um homem confronta-se com um grupo de manifestantes. Faz discurso com dedo erguido, diz que homofobia não é crime, pois o projeto de lei não foi aprovado. Uma das pessoas do grupo, uma mulher, grita xingamentos terríveis contra ele: “branco! heterossexual! rico! nata da sociedade!”, eram os termos ofensivos. O mais assustador era ver que as pessoas que comentavam o vídeo não entendiam a ironia, horrorizavam-se ao ver esses termos sendo usados como ofensa. Faz falta alguém que explique, pacientemente, que as expressões opostas foram, nos últimos séculos, gritadas como ofensa até em estádios de futebol: negro! homossexual! pobre! escória da sociedade! A inversão que a manifestante estava fazendo, com sua voz rouca e louca, era semelhante à que eu já tinha visto, num vídeo muito interessante em que mulheres negras falam sobre suas patroas brancas com termos do tipo “ela é rica mas é limpinha” ou “ela é branca, mas é uma boa pessoa”.

Mas a ironia e a inteligência se perdem, quando enfrentam o monstro na rua e se misturam com ele. Quem assistiu “Alien” tem a metáfora gravada na retina: o mal entra pela boca. Quando um combatente solta seu grito de guerra, torna-se hospedeiro do monstro, que nele penetra e desce sorrateiramente pela garganta para alojar-se nas tripas.

O que fazer? Sinceramente, não sei. Tenho tentado observar com alguma atenção para saber se a poesia ainda guarda alguma potência, se a arte ainda tem alguma força, se a cultura ainda tem algum valor -e se essas palavras ainda tem algum significado. A possibilidade de novos territórios semânticos, com aldeias onde possamos descansar e refazer as forças, é pouco, muito pouco, quase nada… e nem sei se existe.

Mas sei que, embora possa parecer o contrário, o fanatismo é a ausência da fé. Por isso pego assim minha enxadinha, modesto texto de rarefeita poesia, e vou plantando, vou plantando…

 

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