Amar por inteiro

Veriana Ribeiro

Ela tinha os cabelos mais bonito que já tinha visto, eram longos, ruivos e esvoaçantes. Eu ficava encantada toda vez que ela passava pelo corredor, hipnotizada. Sua voz era o canto da sereia, que me levava para o fundo do mar. Não conseguia fazer outra coisa além de olhá-la. Cada vez que me dirigia a palavra, derretia por dentro, emocionada que ela reconhecia minha presença. Quem diria que saberia meu nome?

Se procurasse no dicionário o significado de amor platônico, encontraria uma foto nossa conversando na xerox da UFAC. Naquela época ainda não existia o termo crush, mas era exatamente isso que ela era. Só que eu insistia em dizer para mim mesma – e para meus amigos – que aquilo era admiração. “Eu só acho ela muito bonita, queria ser assim”. Não poderia aquilo ser algo mais, afinal de contas, eu estava apaixonada por outra pessoa. Um rapaz. Um homem.

Eu nem mesmo ousava me definir como heterossexual, porque isso não precisa de definição. Entender aquela identidade. Heterossexual. Que palavra mas estranha de falar. Hétero. Aquele que ama o outro. Simples assim. É assim que as coisas são, não é? Não são. Não para todos.

Às vezes seu amor não cabe nos padrões.

Outras admirações femininas vieram. Nossa, como aquela amiga de black power tem um rosto bonito. E um sorriso encantador. Ah, mas aquele menina na festa tinha olhares tão sensuais, que dava vontade de se perder na imensidão daqueles olhos. E o que falar da coleguinha que gostava de dar selinhos nas amigas? Como eram doces aqueles lábios. Doces demais. Como chocolate. Você simplesmente não quer parar de comer.

Viciantes.

Tão viciantes que me via pensando em tê-los por mais tempo. Mais do que alguns segundos. Como seria sentir aquele perfume com o meu? Colocar a mão em seus cabelos encaracolados? Sentir a sua pele esfregando na minha? Como seria amar, inteiramente, profundamente?

Foi então que eu percebi que estava sempre me relacionando pela metade. Não porque tinha a incapacidade de amar por inteiro, mas porque o amor em mim não cabia naqueles padrões que eu insistia em comportá-los. Ele transbordava, para todos os lados.

Eu não poderia amar um lado sem reconhecer totalmente o outro. Os vários fragmentos que me identificavam. Eu não poderia me amar completamente, se não amasse também alguém igual a mim. Não reconhecesse o meu amor, como ele era.

E demorou muito tempo para eu entender o que significava amar assim, sem rótulos, sem restrições, sem meias verdades. Demorou muito tempo para eu me amar por inteiro e me identificar por inteiro.

Bissexual. Aquele que ama em dobro. Ama por dois. Ama o feminino e o masculino que existem em todos, em cada um de nós. Que consegue amar cada fragmento de si e dos outros. Aquele que ama. Simplesmente ama, não pelo exterior, mas por aquilo que a pessoa carrega no peito. Que se apaixona pela alma, por dentro da casca.

Amar assim. Completamente.

Meu amor não precisa de cura, porque é esse amor que me cura todos os dias – do preconceito, da vida, das tristezas. É a capacidade de amar, assim, que me permite viver plenamente.

Eu não entendo porque alguém iria querer me obrigar a amar pela metade, quando eu posso simplesmente amar por inteiro.

 

 

 

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