Acima da fumaça

Antonio Alves

O jovem presidente da França, Emmanuelle Macron, convidou a ex-senadora brasileira Marina Silva para participar de um debate em Nova York, durante a Assembléia Geral da ONU, com o objetivo de elaborar um pacto mundial para a proteção do meio ambiente. A neguinha acreana continua sendo a maior referência brasileira em um assunto de total importância para o futuro da humanidade. E o presidente francês faz questão de apresentar-se como uma opção de liderança mundial diretamente oposta ao do desastroso presidente norteamericano, Donald Trump.

Temer estava lá, tentando ser menos ridículo que sua antecessora (coisa fácil, é só não falar sobre estocar vento e outras sandices) e menos irrelevante que ele mesmo (o que é impossível). O Brasil sumiu do mapa mundi, ao menos até 2019. Dependendo de quem os brasileiros vão colocar no Planalto, pode sumir por mais tempo.

É impressionante o tanto que andamos para trás. Há uma dúzia de anos, estávamos envolvidos num intenso debate mundial não apenas sobre como reparar os danos ambientais feitos no passado e enfrentar as terríveis mudanças climáticas que já batiam à porta, mas também em definir possibilidades de futuro: economia de baixo carbono, desenvolvimento sustentável, mudanças na matriz energética, certificação ambiental, multas internacionais sobre emissão de gases-estufa… Hoje não temos nem ânimo para pensar em futuro e a violência nos empurrou para o Velho Oeste dos filmes de bangue-bangue.

Engana-se quem pensa que o retrocesso é político. A política foi o motor da crise, sim, mas a falência da civilização é generalizada. E se há algum ponto de origem, certamente não é a alguma decadência ética moderna -que isso já existia antes de Roma- nem o caos narcotecnológico contemporâneo, que já parece um espasmo terminal da humanidade ansiosa pela própria extinção. Mais parece que começou como um desdobramento do que se chamava, antigamente, de pecado original: a consciência de uma separação e relação conflituosa com a natureza. Tudo ilusão, é claro, mas faz muito tempo que vivemos tomando como reais as sombras nas paredes da caverna.

Como sairemos, ninguém sabe. E nas ruas desta cidade, às 3 da tarde o sol é uma bola de fogo por trás da fumaça, que contemplamos com nossos olhos ardentes. Eu mandaria um pedido de socorro aos líderes do mundo, por uma amiga acreana convidada para as rodas de conversa, mas desconfio que eles mesmos já não se sentem muito seguros.

Teremos que dar o nosso jeito.

 

 

 

Política Zero

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