Declaração de Vida

A quem interessar possa

Antonio Alves

Está mesmo muito difícil viver: o dia cinzento, nem tanto de nuvens quanto de fumaça, os olhos e a garganta ardendo, a respiração difícil. Todo ano é assim, em agosto e setembro, mas algo me dá a impressão de que está piorando -ou talvez seja meu corpo que já não tenha a mesma resistência. Não sei quanto aos outros, os antigos companheiros que se insurgiam contra a destruição do mundo, pois já não converso com eles sobre esses assuntos. Talvez não sintam esse mal-estar, talvez achem que a vida melhorou.

Mas lembro de antigas conversas. Numa reunião de “planejamento”, nos já distantes anos 90 do século passado, comentei com os participantes sobre as condições excelentes da sala em que estávamos: temperatura agradável, ar limpo, água puríssima em copos translúcidos sobre a mesa de boa madeira, carpete macio sob os pés, cadeiras confortáveis, iluminação perfeita, isolamento acústico que nos guardava dos ruídos externos, um grande mapa de acrílico em que podíamos assinalar os lugares que nossas decisões alcançariam e as comunidades que seriam beneficiadas… Mas para criar aquela bolha de conforto, estávamos detonando com o mundo exterior. O impacto ambiental daquela sala é incalculável. A quantidade de material e energia ali concentradas exigia o uso de montanhas de insumos naturais, pagos com muito trabalho reunido em impostos. Teríamos que planejar algo muito, mas muitíssimo bom, que fosse capaz de compensar tamanho estrago, ou seríamos apenas um bando de mentirosos quando falássemos em desenvolvimento sustentável, proteção ao meio ambiente e outras promessas.

Sei que alguns resolveram de forma satisfatória a contradição entre a fala e a ação: simplesmente deixaram de falar, ao menos em mudanças no modelo de desenvolvimento. Retrocederam às promessas mais básicas, casa e comida, e à velha “geração de emprego e renda”, começando, naturalmente, pela manutenção dos seus próprios. Interrompeu-se, também o questionamento sobre os velhos parâmetros e índices que já não mediam adequadamente a realidade, e foram abandonados os esforços para criar novas metodologias e fazer outras medições. Teoria sem prática ou prática sem teoria? Tanto faz.

Mas abaixo do céu de fumaça as coisas não pararam de mudar -e para pior, mesmo que o orgulho das realizações da nossa geração não admita. Basta dar um passeio no centro da cidade, qualquer cidade, para constatar a degradação das nossas velhas amigas “condições sociais” e nas margens do rio, qualquer rio, para ver o estrago nas também velhas conhecidas “condições ambientais”. Alguém conhece e quer citar índices de violência, mortalidade, doenças, desemprego, poluição, qualquer coisa? Esteja à vontade, mas já sabe que não influi nem contribui.

Bem, isso é apenas o começo da conversa. Antes de prosseguir, quero fazer dois esclarecimentos. Um: não estou colocando a “culpa” em ninguém, nem acho que exista propriamente uma culpa, embora todos possamos senti-la, eventualmente, pelo menos aqueles que compartilham de algum sentimento de responsabilidade coletiva. Dois: não tenho a intenção de desanimar os que ainda trabalham, em qualquer organização ou instituição, com projetos públicos, privados ou comunitários que tentam resolver problemas, atender demandas ou empreender alguma melhoria social-econômica-ambiental.

Quero apenas, inicialmente, constatar o déficit de reflexão e debate dos últimos anos. Um acúmulo de vazio. No mais, tudo o que tinha a dizer já está escrito no livro “Política Zero”, que está na loja virtual de caissa-me.com e que volto a recomendar que comprem e leiam.

Em síntese, apenas repito e resumo o parágrafo que escrevi há dois dias: engana-se quem pensa que o retrocesso é político. A política foi o motor da crise, sim, mas a falência da civilização é generalizada. E se há um ponto de origem, certamente não é a alguma decadência ética moderna -que isso já existia antes de Roma- nem o caos narcotecnológico contemporâneo, um espasmo terminal da humanidade ansiosa pela própria extinção. Mais parece um desdobramento do que se chamava, antigamente, de pecado original: a consciência de uma separação e relação conflituosa com a natureza.

Prossigo daí, pois que tenho ainda a velha mania utópica de projetar saídas, soluções, alternativas… ou talvez me sinta no dever de pensar no futuro de meus filhos, especialmente este que brinca com o celular aqui a meu lado, que terá quatro anos em novembro, quando nascer sua irmãzinha caçula.

Localizo, assim, nestes dois últimos parágrafos, o nó da questão e minha tentativa de desatá-lo: nosso relacionamento conflituoso com a natureza e nosso amor aos filhos. Agora deixem-me levar essas idéias a passear.

Já pensei um bocado sobre isso de gente e natureza. Descontando-se as exegeses antropológicas e filosóficas desses termos, que nos alertam sobre as ilusórias noções urbanas-ocidentais sobre o que é “gente” e sobre o que é “natureza”, e também a igualmente ilusória idéia de que sejam entidades separadas entre si, o fato é que no senso comum e no cotidiano vivemos tropeçando em estereótipos. Quando alguém fala em “relacionamento com a natureza”, já parece coisa de antigos hippies ou de seus sucessores ecologistas, que também só existem como caricaturas na imaginação urbanóide.

Uma vez, numa série de palestras para uma turma de professores, pedi que escrevessem algumas linhas sobre como era seu relacionamento com a natureza. Teve quem falasse da chácara da família e de nadar no açude, ou de cuidar do jardim e de plantar fruteiras, mas me chamou atenção o longo texto de uma jovem que falava da Bíblia, da desobediência que levou Adão e Eva a serem expulsos do Paraíso e de outras questões aparentemente muito distantes, digamos assim, da natureza do assunto. Mais tarde fiquei sabendo que a jovem e religiosa professora estava noiva e se casaria dali a três meses. Então entendi, ou suponho ter entendido: a natureza é, primeiramente, nosso corpo. Às vésperas do casamento, dois jovens cheios de amor e hormônios certamente vivem o drama do pecado original, do acesso ao fruto proibido, da necessidade de obedecer e submeter o desejo à lei, de colocar seu “relacionamento com a natureza” sob o domínio do espírito.

Imerso na humanidade, também tenho sentido em minha carne a devastação da floresta, as queimadas sufocantes, a loucura piromaníaca, a expulsão dos índios de suas terras, a escassez da água limpa, a morte trazida pelas catástrofes e desastres ambientais, a expansão do deserto, o envenenamento pelos agrotóxicos e todos os crimes em que temos sido -ao mesmo tempo- agressores e vítimas. Também tenho sentido as dores do espírito encarcerado em estufas artificiais, como a sala de planejamento que descrevi acima e todos os confortos e facilidades do controle remoto, da robotização, da hipnose da tela da televisão, celulares e computadores. E ainda tenho sofrido o afastamento da Terra, a falta de uma viagem pelos altos rios, do peixe moqueado na praia, das noites estreladas nas aldeias.

Imerso na natureza, começando pelos poderes e fraquezas de meu corpo, tenho sentido a força draconiana das leis que nos submetem a uma sistema injusto, dominado pela mentira e o cinismo consagrados nas solenidades das instituições e propagandeados nos meios de comunicação. Compartilho da revolta de meus semelhantes com a obrigação de respeitar e obedecer a quem nos humilha e nos rouba. Sinto a dor crônica do atraso estético que se orgulha da vulgaridade produzida em escala industrial e despreza a cultura simples e artesanal dos povos. E mais intensa é a dor de ver, todos os dias, a violência arrogante expulsar a gentileza e a cordialidade de todos os lugares, de todos os relacionamentos.

E antes de propor caminhos, projetos, modelos e soluções dos gravíssimos problemas que só aumentam em todos os territórios, permito-me revelar a fórmula mágica que me mantém vivo e com a saúde possível nesses tempos difíceis. Quando coloco a comida no prato de meus filhos, quando torço silenciosamente por eles em suas batalhas, até quando me exaspero com suas bagunças e rebeldias, sinto que no fundo do pote em que se guarda o amor -líquido essencial- há um resíduo de esperança. Há ali, quase imperceptível, um desejo de alegria futura, de que a vida deles na Terra seja boa e farta, que possam rir e saltar em muitos dias, cantar e bailar em muitas noites, que sejam felizes. Não fosse por essa esperança, nem escreveria uma palavra e sequer seria capaz de pensar.

Vamos encontrar os caminhos, nós humanos. Quanto a mim, voltarei a buscar soluções para os problemas, comunicar a experiência de antigos numerosos erros e alguns acertos. Ainda sou bom no meio-jogo, forte na tática, e tenho aprendido boas lições de estratégia. Sou lento, dispersivo, perfeccionista na forma, vago no conteúdo, enfim, tenho todos os defeitos que podem levar qualquer guerreiro à derrota. Salva-me, entretanto, uma inesperada lua que triunfa sobre a neblina e a fumaça e lança seu brilho no chão de meus passos.

Retomo, assim, as diretrizes do tempo. Refaço minha promessa.

 

 

Política Zero

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