Muitos anos de vida

Aniversário do txai Terri Aquino e de seu caçulo Nixiwaká, imaginem, todos nós crianças e índios no terreiro da aldeia, peixe na folha da bananeira e as melhores histórias de todos os tempos. A vida do Terri é um desses tesouros da Amazônia que o mundo não conhece. E se for juntar a vida dos amigos que ele reúne, dá três bibliotecas de Alexandria, uma delas para o txai Antonio Macedo -velho parceiro de tantas lutas e viagens por este mundo e muitos outros.

Mundos da ayahuasca: na resistência e ressurgimento de todos os povos, o cipó é a força que sustenta e a folha é a luz que mostra o caminho. Os antigos pajés estão vivos na memória dos que ainda vivem e trabalham na Terra. E a cantoria prossegue, ao redor das fogueiras, passando adiante os conhecimentos ancestrais, de geração a geração.

Batalhas não faltam. Agora mesmo, todos os povos do Brasil estão em guerra contra o governo e os deputados ruralistas que prosseguem desfazendo as leis, as instituições e até as áreas reservadas para proteção da floresta e das comunidades que nela vivem. Não adiantam os alertas dos cientistas sobre as graves consequências do desflorestamento -para o planeta inteiro. Nem as desgraças das catástrofes conseguem tocar os cariús encegueirados pela ganância.

Apesar de tudo, o povo cresce e a experiência da vida na floresta continua a ofertar soluções aos problemas da civilização, que ainda a desconhece. Por enquanto, pouca gente responde ao chamado: um segmento das classes médias, uma pequena parcela da juventude, um punhado de professores e cientistas… Há uma simpatia generalizada pela causa socioambiental no povo brasileiro, que sentimentalmente é contra o genocídio e a devastação, mas predomina a desinformação -terreno propício ao preconceito.

Em 1977, quando Terri chegou ao rio Jordão, afluente do Tarauacá que desemboca no Juruá, ninguém sabia nem se esses povos ainda existiam, imaginava-se que estavam extintos e eram coisa de um passado distante. Nesses muitos anos de vida, das vidas de quem subiu os rios e trouxe notícias da floresta para a cidade, muita coisa boa se produziu e o tesouro já não é mais oculto.

Qualquer serviço ou empreendimento, público ou privado, pode enriquecer-se com a experiência indígena. Educação, por exemplo: os métodos pedagógicos e materiais didáticos desenvolvidos pelos professores indígenas nas escolas das aldeias tem o poder de renovar o árido sistema de ensino das cidades. Até na economia, quem abandonar a absurda idéia de que os índios são “improdutivos” e se dispuser a conhecer os variados sistemas agroflorestais, os trabalhos de recuperação de áreas degradadas e repovoamento de rios, além de extensa produção simbólica, artes, artesanato, cerâmica, tecelagem, certamente encontrará lições valiosas de sustentabilidade e desenvolvimento, mesmo em condições inóspitas e em tempos de crise.

Mesmo em dimensões comunitárias, familiares e até individuais, há um aprendizado possível e capaz de gerar grandes mudanças na vida, começando pelo tratamento e manutenção da saúde, passando pelas alternativas de alimentação, até chegar à construção das casas e criação de ambientes de bem-estar livres do uso excessivo de material e energia. Muito coisa já tem na internet, nem precisa procurar muito.

Pra quem mora no Acre é mais fácil. Os “txais” estão por aí, em toda parte. E até mesmo o peixe de açude, gordo de ração, fica bom depois que a banha derrete no calor das brasas e escorre pelas frestas da folha da bananeira. É só querer.

 

 

Política Zero

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