Nolite te bastardes carborundorum, bitches

Veriana Ribeiro

Aviso: o texto contém spoiler da série The Handmaid’s Tale.

“Não permita que os bastardos reduzam você a cinzas”. São esses dizeres que estão escritos em latim no quarto de Offred, uma Aia no mundo distópico de The Handmaid’s Tale. A expressão “Nolite te bastardes carborundorum” sequer faz parte do latim em sua totalidade e é uma piada interna de Margaret Atwood, escritora do conto que deu origem ao seriado. The Handmaid’s Tale ganhou o Emmy de melhor série dramática deste ano, mas apesar de ter uma qualidade incrível, não é um programa fácil de assistir.

Imagine a seguinte realidade: uma onda de infertilidade atinge o mundo, as pessoas não conseguem engravidar – e quando conseguem, ocorrem abortos espontâneos ou as crianças nascem tão doentes que morrem alguns dias depois. As crianças param de nascer. Os Estados Unidos perdem sua força e em seu lugar é criado Gilead, uma nação baseada na Bíblia e na fé. O conservadorismo toma o poder e começa, pouco a pouco, a tirar os direitos das mulheres para que elas não “se desviem de seu caminho de origem: a procriação”.

Elas perdem o direito da posse. Seus bens devem ser administrados por seus maridos ou algum parente masculino. Elas não podem mais trabalhar ou dirigir. As mulheres ricas e esposas dos comandantes – os homens importantes desta nova nação – ganham o papel de esposas. As mulheres pobres tornam-se empregadas. As mulheres férteis são transformadas em Aias, propriedades dos comandantes que devem ser estupradas mensalmente nos períodos férteis em um ato chamado de “A Cerimônia” (inspirada em uma passagem bíblica) até que engravidem e, assim, possibilitem a perpetuação da espécie. Após o nascimento da criança e o período de amamentação, elas serão entregues a outras famílias, para que tenham mais filhos.

Assustador, não é? É isso que acontece no seriado.

June (Elisabeth Moss) é uma mulher fértil que há três anos foi capturada por agentes do governo, enquanto tentava fugir com a família, e é obrigada a tornar-se uma Aia. Sem saber onde estão o marido e a filha, ou se estão vivos, ela resiste e sobrevive em um mundo inóspito, na esperança de reencontrá-los. As Aias respondem de acordo com o nome do patriarca da casa, assim June torna-se Offred, ou Of-fred (Do Fred). É através dela que vamos descobrindo como os Estados Unidos tornaram-se Gilead e como os direitos das mulheres foram tirados em pequenas doses, para que quando elas percebessem, não tivessem mais como fugir.

Esse mundo distópico torna-se assustador exatamente porque encontra sentido em nossa realidade. Se uma onda de infertilidade atingisse o mundo neste instante, não seria difícil acreditar que uma nação como Gilead existisse. Afinal, existem ainda lugares do mundo que as mulheres não podem dirigir, ter propriedade ou trabalhar. A mutilação feminina, em que o clitóris é arrancado, também ainda ocorre em muitos países. Em outros, proíbem a homossexualidade, como ocorre no seriado. Ou seja, está tudo muito perto de casa.

Existem muitos temas que podem ser abordados através da série, mas quero falar aqui sobre um em especial: a capacidade que o Estado tem sobre decidir sobre o corpo feminino.

Um exemplo é o Brasil, com a Proposta de Emenda à Constituição 181, criada pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG) e popularmente chamada de ‘Cavalo de Troia’, que está prestes a ser votada. A PEC ganhou esse apelido por causa de uma armadilha no texto: ao mesmo tempo que propõe estender a licença-maternidade para mães de bebês prematuros, abre espaço para a proibição do aborto, mesmo em casos de estupro. A votação, que ocorreria na semana passada, foi adiada para o início de outubro após uma mobilização na internet.

Além da PEC 181, existem outras propostas que pretendem retroagir nos poucos casos em que é permitido aborto. A PEC 29, que tem o senador Eduardo Amorim (PSC-SE) como relator, propõe mudar parte do artigo 5º da Constituição para garantir “o direito à vida desde a concepção”. O Estatuto do Nascituro, escrito por Luiz Bassuma (PT-BA) e Miguel Martini (PHS-MG), propõe que qualquer tipo de aborto seja abolido e que as mulheres possam ser criminalizadas por trabalhar durante a gestação. É, isso mesmo, você leu corretamente: trabalhar durante a gravidez pode virar um crime. A proposta também impede pesquisas com células-tronco e suspende sessões de quimioterapia, radioterapia e até mesmo analgésicos caso afetem o embrião. Não importa a saúde da mãe, apenas a manutenção do feto.

Ou seja, o corpo das mulheres está sendo decidido em leis, escritas por homens, sem considerar a vida dessas mulheres. Sem considerar se essas mulheres vão querer ter filhos. Pressupõe-se que elas devem, mesmo que isso coloque a vida delas em risco ou se o filho foi fruto de um estupro. Não importa se essas mulheres tem condições de ter filhos, emocionalmente ou financeiramente. O desejo da mulher não deve ser levado em consideração.  É preciso legislar sobre o corpo feminino, para que elas não escolham. Porque alguém deve decidir por elas, impedir que elas se desvirtuem de seu caminho original: o de perpetuar a espécie. Assim como as mulheres de Gilead.

Que sejamos todas Aias, dizem os nobres políticos.

Se é para ser assim, lembro que The Handmaid’s Tale é uma série sobre resiliência e superação. As Aias voltam-se contra o sistema opressor e não apedrejam Janine. As Aias lutam através de uma organização chamada Mayday. As Aias são um exército silencioso procurando saídas para a situação opressora em que vivem. Se eles querem que sejamos Aias, então que tomemos como mantra a frase de June após descobrir que a Aia anterior na casa em que vive se suicidou: “Havia uma Offred antes de mim. Ela me ajudou a encontrar uma saída. Ela está morta. Ela está viva. Ela sou eu. Somos Aias. Nolite te bastardes carborundorum, bitches

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