Café com crises

Veriana Ribeiro

Ei menina, senta aqui. Olhe essa falha! Veja como ela é cheia de pequenos defeitos. Chegue perto, aí de longe você não vai enxergar. Preste bastante atenção em todas as rachaduras, em cada parte que deu errado, cada pequeno pedaço que não está como deveria, todas as expectativas que não foram atendidas.

Fique horas observando isso, analisando, martirizando-se.

Porque, pequena, a vida não tem graça se você apenas lidar com os defeitos, superá-los e seguir em frente. É preciso fazer com que cada dificuldade seja maior do que realmente é. Deitar na cama em prantos e permanecer lá por dois dias. Apedrejar a má sorte, as estrelas, as dificuldades, aquilo que você não fez cinco anos atrás, a frase errada que você disse no primeiro dia de curso aos 18 anos, o dia que riram de você na sétima série. Agarre-se nisso. E use como combustível para todas as suas inseguranças, para validar cada medo que você tenha. Use todas as falhas contra você.

A graça está aí, se automutilar. Porque a vida, garota, só tem graça se você se sabotar.

Imagina só, se você esquecesse todos os medos e apenas fizesse o seu melhor. E aceitasse, abraçasse, adorasse seus defeitos e suas qualidades. Imagina só se você se contentasse com o que é capaz de oferecer. Sem se comparar com todos os gênios que você admira, ou todas as pessoas que estão felizes colocando suas conquistas no instagram, os amigos que estão ajeitando suas vidas e parecem saber exatamente o que estão fazendo. Que coisa mais chata! Que entediante!

Imagine só, ter paz?

Não é assim que a vida tem que ser vivida. Quem quer escrever sobre as coisas que deram certo? Sobre olhar para o melhor de si mesmo e não para o pior? Agradecer tudo o que existe na sua vida? O que é você, um livro de autoajuda? Uma dessas pessoas zens que falam gratidão? Todo mundo sabe que os melhores poemas são feitos na tristeza, na melancolia. Então alimente-a. Afinal, a felicidade é tão superestimada. Ninguém realmente quer viver assim, sempre tão leve. Estamos todos procurando uma cruz para segurar, algo pra nos prender ao passado, pra nos fincar no chão e impedir de avançar.

Então senta aqui, toma um café comigo e vamos ficar observando cada pedacinho da sua vida que está falho, quebrado, amarrotado. Vamos pensar no seu aniversário que está chegando e em todas as coisas que você gostaria de fazer antes dos 30, mas que não vai conseguir. Porque você só tem mais dois anos e o tempo está acabando. Já se vão 28 anos e você não tem o emprego que queria e não deve passar de novo naquele mestrado. Você nunca passa. E aí você pode sentir que não é tão inteligente, ou que está fazendo tudo errado, e que tal se a gente olhar sua conta bancária? Isso vai te deixar ainda mais triste. Já que estamos aqui, podemos falar sobre o livro que você nunca conseguiu terminar de escrever e todos os planos que você não atingiu e os lugares a que nunca viajou. E aí, a gente vai olhar os vídeos e fotos da sua família pra você pensar em tudo que está perdendo e a saudade apertar.

Sabe menina, é esse o sentido da minha existência, colocar todas essas caraminholas na sua cabeça. Nada como uma tarde de café com crises pra deixar as coisas mais interessantes, não é? Então pega esse açúcar, porque ele vai deixar o café menos amargo e a vida um pouco mais doce.  E vamos ficar olhando a paisagem, porque o céu fica lindo nessa hora da tarde.

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