Boa ouvinte

Veriana Ribeiro

Não sei exatamente em que momento isso se tornou importante, mas já faz um tempo que ando prestando mais atenção no meu corpo. Não nas linhas de expressão, que começam a ficar mais marcadas, ou nas estrias em volta da coxa. Me atento à dor da cólica, o peso nas costas, o jeito que meu corpo mexe quando estou respirando, a forma como minha cabeça dói quando estou estressada, o aperto no peito angustiado, a gastrite atacando sempre que tenho uma decepção amorosa.

Meu corpo fala, mas eu nunca tinha parado para escutar.

Gostaria de dizer que sou uma boa ouvinte, mas isso é uma mentira. Na maioria das vezes tomo um remédio para cólica, em vez de pesquisar qual o chá que acalenta melhor minha dor. Ou então compro uma aspirina para esconder a dor de cabeça e continuar me preocupando em paz com as coisas que me fadigam. Às vezes eu compro mel e limão, pra garganta, mas é só.

Nem me venha falar sobre a gastrite, porque tenho mania de alimentá-la com péssimas escolhas e mentiras deslavadas que conto para mim mesma, tentando me convencer a permanecer naqueles relacionamentos que não vão dar em lugar nenhum. Permaneço regando minhas tristezas com lágrimas, esperando que elas deem flores e poesias. Pulo de uma relação fadada ao fracasso a outra, mantendo sempre o mesmo ciclo vicioso. Porque elas estão aqui para serem alimentadas, já dizia o poeta, não confio em ninguém que não seja viciado em nada.

Mas meu corpo fala, mesmo quando eu não quero escutar. Ele grita, resmunga e implora por atenção. Até que não possa mais ignorá-lo. Às vezes isso se transforma em uma tarde de cama, em outras, uma ida ao médico. Na maioria das vezes tudo vira inflamação, vai direto pra garganta e me impede de falar. Já que não estou escutando, também não tenho o direito de me comunicar, é o que diz o meu corpo. Ele é vingativo.

Eu sempre tive problema na garganta, desde bem pequenina. Falar, nem sempre foi algo fácil. Escrever, também não. Nem sempre consigo entender esse corpo que habito, muito menos a mente e as inseguranças que permanecem inquietas no fundo da alma.

Mas me esforço pra ouvir.

Agora, pelo menos estou prestando atenção. No corpo, na mente, nas crises, nas inseguranças, em tudo que grita aqui dentro do peito. Nem sempre entendo o que estão tentando me dizer, da mesma forma que tenho dificuldade de compreender as linhas tortas em que Deus escreve minha história. Para onde estou indo? Quais caminhos percorrer?

Tento ser uma boa ouvinte. Tento me convencer que isso já é um avanço. Que é o que importa. Talvez alguma mudança venha desta nova relação de mim comigo mesma.

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