Acres

Ou de como a Política deixou de ser uma ferramenta emancipatória e passou a se moldar às necessidades plenas de crises e sem perspectivas de superação

Itaan Arruda

Há 15 anos, “As Invasões Bárbaras” era produzido. Rodado em 2002, o filme chegou às salas da América do Sul e Europa em 2003. Em Cannes, recebeu o prêmio de melhor roteiro e melhor atriz (Marie-Josée Croze). Em 2004, conquistou a glória ao levar a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro na premiação do Oscar.

O que explica o sucesso do filme do diretor canadense Dennys Arcand? Que elementos estão expostos ali que expõem uma identificação tão grande com o público e (o mais intrigante) com a crítica? Por que as propostas de um filme tão crítico às crises contemporâneas foram assimiladas? A quais interesses a película atende?

Nos jogos dramáticos que se estabelecem na narrativa, há dois eixos temáticos: o primeiro (e mais óbvio) são os conflitos de ordem pessoal. A personagem central, o professor de História Rémy, tem relações familiares mal resolvidas, consequência de uma intensa vida dedicada aos amores extraconjugais e a uma produção intelectual que ele mesmo sugere medíocre.

O segundo eixo é mais complexo porque coletivo. Diz respeito aos sonhos e frustrações de toda uma geração: a geração Woodstock, a geração do Sexo, Drogas e Rock and Roll, a geração da pílula, que queimou sutiãs, que defendeu o aborto e protestou com Bob Dylan contra a Guerra do Vietnã.

Em “As Invasões Bárbaras”, Arcand refina o sofisticado despudor iniciado em “A Queda do Império Americano” (1985) quando já se prenunciava a gênese de uma crise tão profunda porque não via, nela mesma, o início de sua superação.

Com a doença terminal de Rémy, o filho Sébastien é chamado pela mãe para que a ajude na condução do tratamento. Operador da bolsa de valores em Londres, Sébastien resiste inicialmente devido a conflitos familiares anteriores. Convencido, o filho cruza o oceano e parte para um socorro que o transformará completamente.

O caos do sistema de saúde pública do Canadá é a primeira denúncia do filme. Rico, o filho Sébastien articula uma rede de corrupção que envolve sindicatos e direção de hospital para dar conforto ao pai agonizante. Até os antigos e agora distantes amigos são trazidos para próximo de Rémy para a comunhão dos últimos momentos de vida.

Da vinda dos amigos à visita de ex-alunos, passando pela mudança do paciente para um quarto mais confortável no hospital, tudo gira em torno do dinheiro. É essa a velha e única referência. Com a chegada dos amigos, Rémy inicia um processo de (re)avaliação da própria vida, inicialmente como intelectual.

Marxismo; marxismo-leninismo; construtivismo; existencialismo, maoísmo e tantos outros ismos são chicoteados pela análise do grupo. São estruturas de pensamento tão veneradas pela “esquerda” em todo mundo que não conseguiram dar respostas a problemas básicos da existência. É o que fica sugerido.

A reflexão transita para o campo pessoal de forma incomum. Nesse instante, as ausências, enquanto pai, falam mais alto pela personagem. Difícil segurar a emoção nesse instante. O uso da heroína em um tratamento alternativo concretiza a prática da eutanásia por parte do professor.

Não havia outra forma de morte para Rémy: tinha que ser pela lógica, pela escolha racional. Não havia outra saída. Tinha que vir por uma decisão. Se não há referências ideológicas; se não há relações políticas emancipatórias em um mundo que gestou o 11 de Setembro; se os partidos políticos não têm mais sintonia com a sociedade; se a produção intelectual também não se referencia pela emancipação; se não há buscas por uma nova forma de o Homem relacionar-se com a natureza… Se a vida é tão repleta de ausências, logo, não há harmonia possível. A existência perde o sentido.

A sugestão de que o que vale, de fato, são as amizades cultivadas ao longo da vida podem até ter dado lógica à trama, mas pode ser vista como uma incoerência de Arcand, já que todos os amigos de Rémy estavam próximos porque foram mobilizados não pela cumplicidade, mas por quem teve condições financeiras de trazê-los até ali.

Os golpes de irracionalidade de que se alimenta a História, como sugere Emil Cioran (citado no filme), faz de As Invasões Bárbaras um filme necessário: em um dado tempo, o Homem estava assim e sem rumo. Os azedos do mundo estão em todos os lugares.

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