Rest Energy

Veriana Ribeiro

A primeira vez que ouvi falar sobre Marina Abramović, fiquei encantada. Como uma pessoa pode colocar seu corpo a serviço da arte, como ela? Como alguém pode doar-se totalmente a uma performance? Seu trabalho explora as relações entre o artista e a plateia, os limites do corpo e as possibilidades da mente de uma forma que nunca tinha ouvido falar. Recomendo o documentário “Marina Abramovic – A Artista Está Presente”, que mostra como a arte e a vida estiveram mescladas em seu trabalho.

Brincadeiras com facas (Rhythm 10), deitar no meio de uma estrela de fogo (Rhythm 5), ficar sob efeito de drogas controladas (Rhythm 2), se colocar à disposição dos espectadores (Rhythm 0). Essas foram apenas algumas das formas com que ela levou seu corpo ao limite.  Realmente é difícil entender esses artistas, ainda mais hoje em dia, em que o mundo busca cada vez mais pragmatismo e produtividade. Como que isso pode ser chamado de arte? Como pode contribuir com a sociedade?

Depende de qual sociedade você almeja. Se for a sociedade do “não pense na crise, trabalhe”, de fato, não vai contribuir em nada. Mas se você almeja um lugar em que os sentimentos não precisam ser neutralizados – e não precisamos nos tornar máquinas produtivas – então, talvez, essa arte tenha alguma utilidade. Seja pra fazer pensar ou sentir. Mesmo que o sentimento não seja bom, mesmo que venha repleto de medos, dúvidas e inseguranças.

Uma das obras mais memoráveis de Abramović é Rest Energy, criada com seu companheiro Ulay, em 1980. Nela, os dois seguravam um arco tensionado apenas pelo peso de seus corpos, com uma flecha apontando para o coração de Marina. Rest Energy é um trabalho difícil, é confiança total, é doar-se ao outro e abdicar do controle da própria vida. É colocar sua vida na mão dos outros. Quantas pessoas conseguiriam fazer um ato desse? Você conseguiria?

O trabalho inspirou uma outra expressão artística: o filme Pendular, que atualmente está em cartaz no Cine Teatro Recreio, em Rio Branco. Os ingressos podem ser comprados por R$ 15 a inteira ou R$ 6 a meia.

Dirigido por Júlia Murat, o longa-metragem foi o grande vencedor do prêmio da crítica do Festival de Berlim em 2017 e conta a história de um jovem casal de artistas que se muda para um galpão industrial abandonado. Uma fita laranja colada no chão divide o espaço em duas partes iguais: à direita o ateliê de escultura dele, à esquerda o estúdio de dança dela. Pendular acontece neste ambiente onde arte, performance e intimidade se misturam; e onde os personagens perdem aos poucos a capacidade de distinguir entre seus projetos artísticos, o passado de cada um e sua relação amorosa.

O leitmotiv de Pendular é o estabelecimento de um nível extremo de confiança e de vulnerabilidade inerente a um relacionamento profundo, assim como na performance de Abramović. Sentimentos difíceis de compreender e vivenciar. Assim como a arte moderna. Assim como a vida.

Mas quem disse que a vida é pra ser prática e fácil de entender?

Às vezes a confusão faz mais sentido.

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