Anti-manifesto

Antonio Alves

Na década de 70 era um escândalo que uma pessoa da classe média, urbana e bem informada fosse indiferente ou favorável à ditadura militar que ainda dominava o país. Quando Caetano Veloso lançou a música “Odara”, era quase moralmente condenável gostar daquele “desbunde”, como se costumava chamar. Ao ficarmos bêbados, nos bares e nas festas, éramos quase obrigados a cantar “Caminhando e Cantando” e outras músicas de protesto, pois dançar ao som das Frenéticas era pecado mortal. Surgiu, então a expressão “patrulhas ideológicas” para qualificar aqueles grupos que pressionavam a sociedade para um comportamento que, mais tarde, desembocaria no “politicamente correto” e coisas assim.

Havia justiça e muita razão em toda essa pressão. De fato, havia que despertar as consciências amortecidas pela censura e pelo atávico conservadorismo da sociedade brasileira, herança de séculos de escravismo. Mas havia muita histeria, também. E é difícil colocar linhas retas e nítidas separando moral, moralismo, sinceridade, preconceito, hipocrisia, direito, direita, esquerda… e a insuportável militância permanente do partido dos chatos, dos que se acham conscientes e críticos apenas porque são ignorantes.

Agora a coisa inverteu. Os chatos da esquerda passaram duas décadas no “poder” e se tornaram bonzinhos, liberais, convivendo tranquilões com todos os vícios e pecados que antes combatiam “combativamente”, isto é, irritantemente. E os liberais pecadores de outrora, na oposição, foram aos poucos se tornando vestais incorruptíveis, vigilantes, punitivos, cauterizantes e purgantes. Não deixam de ter, eventualmente, suas justiças e razões, mas é difícil estimar o índice de hipocrisia e histeria. Como antes e sempre, nas histórias da humanidade.

Há uma frase repetida ao longo do século 20, certamente herdada dos séculos anteriores, que resume esse infeliz sinal de igualdade entre uns e outros, tempos e gerações. Foi pronunciada pelos bisavós parnasianos ao ver os versos tortos dos avós modernistas, pelos avós modernos ao ouvir o rock dos pais hippies, foi repetida pelos pais hippies -agora aposentados- ao ver a dança de rua dos filhos grafiteiros. E dita sempre, diante de qualquer perturbação do nosso sossego estético: “isso não é arte”.

Seja esse o lema da nossa pátria amada, que tirem aquele ultrapassado “ordem e progresso” da bandeira nacional, que seja o grito de guerra das torcidas nos estádios, a frase cunhada nas moedas pelo Banco Central, os dizeres que abrem e fecham as sessões do Congresso, o juramento dos novos eleitos ou autoproclamados presidentes da República.

Essa frase é, afinal, a revelação de nossa verdadeira identidade, que permanece íntima, até secreta, mas que explode triunfante nas ruas e nos templos, nas praças e museus, nas escolas e shoppings, sempre que alguma coisa ou pessoa vinda do lado oposto do muro das ideologias ultrapassa seus limites e ousa tocar nas partes íntimas de um passado que não posso lembrar.

Seja essa nossa declaração no juízo final, para mostrar nossa inocência e nosso direito à paz eterna: isso não é arte.

 

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