A vida que ninguém vê

(E tudo o que poderíamos ser.)

Veriana Ribeiro

Na cena inicial do filme “Bonequinha de Luxo” a personagem principal Holly Golightly desce de um taxi na 5ª Avenida em Nova York enquanto toma seu café da manhã em frente a loja de jóias Tiffany, usando o icônico vestido preto. Mais tarde, a personagem explica que quando está se sentindo muito triste, aquele é o lugar onde procura conforto. É seu ritual.

Holly Golightly: Sabe aqueles dias em que você sente que tudo está vermelho?
Paul Varjak: Vermelho, você quer dizer como blue?
Holly Golightly: Não. Sentir-se blue é quando você engordou ou talvez porque tem chovido por muito tempo, você se sente apenas triste e isso é tudo. O sentimento vermelho é horrível. De repente, você está com medo e você não sabe do que você tem medo. Você já teve essa sensação?
Paul Varjak: Claro.
Holly Golightly: Bem, foi quando eu entendi que a única coisa que me faz bem é pegar um táxi e ir para Tiffany’s. Me acalma imediatamente. O silêncio e o visual orgulhoso dela; nada de muito ruim poderia acontecer com você lá. Se eu pudesse encontrar um lugar da vida real que me fizesse sentir como na Tiffany’s, então…então eu ia comprar alguns móveis e dar um nome ao gato!

(Diálogo do filme Bonequinha de Luxo)

Eu entendo perfeitamente o sentimento e a busca por um refúgio, mas diferente de Holly, sempre que estou me sentindo red eu procuro a livraria mais próxima. Fico lá, folheando todos aqueles livros, pensando nas diferentes histórias, nos personagens e sentimentos contidos naquelas palavras. Mesmo que não compre nada, isso me acalma.

Quando viajei para um futuro ainda incerto, em agosto, não levei comigo nenhum livro. Por mais que os ame, eles são pesados e difíceis de carregar na mala. Não é sensato pra uma pessoa sem casa ficar andando com livros por aí. Mas nessa de ‘desapego’ e ‘quanto menos coisas melhor’ esqueci que iria passar muito tempo em salas de embarque, aviões ou ônibus. E, lógico, me arrependi de não ter levado nenhum companheiro literário para ajudar a passar o tempo.

A sorte é que em Brasília tinha um sebo maravilhoso próximo ao apartamento em que estava hospedada. Passei horas lá, folheando cada página, cada livro, sentindo o prazer de estar em um lugar que me acalmava, que me fazia sentir em casa. Um momento necessário pra uma pessoa cheia de dúvidas em busca de seu lugar no mundo. Depois de muita procura – e dúvidas – escolhi meu companheiro. Prometi a mim mesma que esse seria o único livro que compraria até conseguir ‘ajeitar’ a minha vida, o que, obviamente, ainda não aconteceu. Ele permanece solitário na minha mesa de cabeceira.

O livro em questão é “A vida que ninguém vê”, da jornalista e escritora Eliane Brum. A obra é um conjunto de crônicas-reportagens, escritas sobre o olhar delicado da autora, sobre as pessoas que não viram notícias. No jornalismo existe uma expressão que diz: “Se um cachorro morder um homem, isso não é notícia. Mas um homem morder o cachorro, é”. Eliane mostra que não é bem assim. Pode existir uma história incrível atrás das pessoas comuns, nas vidas ordinárias, no momentos que viraram rotina. E, delicadamente, ela vai mostrando como qualquer pessoa pode ser inspiração pra uma notícia, uma crônica ou uma história. Só é preciso apurar o olhar – e os sentimentos.

As primeiras páginas contam a história de Adail, um carregador de malas do Aeroporto Salgado Filho, que nunca voou. É uma história bonita, de sonhos, desejos e lutas. A vida escondida nos bastidores de um aeroporto. Logo em seguida, vem a trágica crônica de Antônio Antunes, sua família e o enterro de um dos filhos, que morreu ainda no ventre da mãe. “Não há nada mais triste do que enterro de pobre. Porque o pobre começa a ser enterrado em vida”, escreve Eliane. E assim, ela vai tecendo um emaranhado de vidas, algumas bonitas, muitas sofridas. É o mendigo que vive na praça, a moça que pede dinheiro no sinal, o homem que coleciona tudo, a mulher que aprendeu a ler… São histórias e mais histórias, que emocionam e te fazem refletir, sobre os outros e sobre você mesmo.

Eliana tem o dom da palavra e consegue mostrar que o jornalismo poderia ser muito mais do que é. Bastava ele parar de procurar os homens que mordem os cachorros e suas pirâmides invertidas. E nós, poderíamos ser pessoas melhores do que somos. Basta apurar o olhar, e os sentimentos, para os outros.

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