A histeria institucionalizada

Veriana Ribeiro

Nem acordei direito e a internet já me mostrava que a polêmica do “o que é a arte” e a patrulha da censura pela moral e os bons costumes continua causando muito barulho (e tentando fechar mais uma exposição, mas ignorando os reais casos de pedofilia no país) e, agora, tentam institucionalizar sua histeria coletiva. Uma proposta de lei feita por Marcos Feliciano (PSC-SP) tramita na Câmara dos Deputados. O texto proíbe no Brasil a “profanação de símbolos religiosos” em apresentações ao vivo ou mostras de arte. A proibição se aplicaria ainda a programas de TV, cinema, DVD, jogos eletrônicos e até jogos do gênero RPG (Role Playing Game).

Sem clareza no texto, o projeto abre brecha pra vetar qualquer show, filme ou programa de TV que aborde ou critique questões religiosas. Exemplo? Os shows de Madonna, Iron Maiden ou Lady Gaga, que já criticaram a religiões, poderiam entrar na roda. Séries como “The Handmaid’s Tale”, “Supernatural”, “American Gods”, “Lucifer” e “Preacher” ou filmes como o polêmico “Mãe!” (2017), “Sangue Negro” (2008) ou “Anjos e Demônios” (2009) também poderiam ser proibidos pelo projeto.

O discurso leva em conta um desejo pessoal presente em qualquer um – que é proteger suas crenças e costumes – para promover uma caça as bruxas. Se a história nos ensina alguma coisa é que a censura por motivos religiosos ou políticos não é novidade e, em nenhum momento, deu muito certo. É só lembrar da Idade Média, que censurou grandes nomes da literatura e do pensamento. Ou de Hitler, que organizou fogueiras públicas para queimar livros, determinado a apagar qualquer traço de comunismo ou de “contaminação semítica” em sua cultura. Se pensarmos mais perto de casa, é só relembrar a Ditadura Militar, que matou e torturou milhares de pessoas no Brasil e expulsou artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Chico Buarque.

“A menina de Roubava Livros” e “O Nome da Rosa” são alguns romances (que posteriormente viraram filmes) que contam histórias sobre esse tipo de perseguição. A revista Super Interessante tem uma matéria sobre censura, que vale a pena ser lida. Protágoras, Sócrates, Nicolau Copérnico e Galileu Galilei foram alguns dos grandes nomes que já foram censurados por irem de encontro com costumes ou religiões de sua época. Hoje, são reconhecidos, mostrando que a censura de hoje pode ser o grande pensamento de amanhã. Só a história poderá dizer.

Uma lei como essa não protegeria religião nenhuma, apenas prejudicaria nossa capacidade crítica. As pessoas não sabem mais distinguir o significado das palavras crítica, profanação e apologia, elas perderam o sentido, de tanto que foram gritadas na internet. Um quadro feito por uma sobrevivente de pedofilia, que retratou através de sua arte os abusos que sofreu, foi censurado acusado de apologia ao crime. Uma peça de teatro, que aborda a questão da homofobia, comparando as violências sofridas por transexuais com a crucificação de cristo, foi considerada profanação. Até mesmo a censura ao nu não é uma novidade. Marina Abramovic era criticada por suas performances muito antes da patrulha do MBL existir.

A arte pode ser usada para qualquer coisa, seja para te deixar em um lugar cômodo e belo, seja pra subverter todas as nossas crenças e ideologias. Crenças essas que só fazem sentido para nós mesmos, e não podemos colocar nosso guia moral-espiritual para definir toda uma sociedade. The Handmaid’s Tale e países teocráticos como Afeganistão e Arábia Saudita já nos mostraram onde isso pode dar.

No livro Política Zero (que está a venda em nossa loja virtual), meu pai escreve: “Costumamos chamar as crenças alheias de superstições e às nossas superstições damos o nome de crença. Nossa ideologia é ciência, a ciência dos outros é ideologia. Nossos crimes são apenas erros, os erros dos outros são crimes. Nossas árvores só dão frutos doces, as dos vizinhos dão frutos amargos. Mas vem a tempestade e joga todas no chão, por igual, e as sementes por toda parte”. Já um amigo meu, costuma dizer: “A bíblia é que nem signo. Acredita quem quer”.

Nessa época de guerra, em que a religião está virando arma de dominação e não de libertação, acho os dois bem sábios. Censura no olho dos outros é refresco.

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