Conversa em dia

Antonio Alves

Prazer enorme é conversar com um velho mestre, como Elson Martins. Desde que o conheci, na agitada e intensa década de 70, fazendo o histórico jornal Varadouro, ensinou-me caminhos do jornalismo e da acreanidade.

Até hoje permanece um sonhador sensível, com a incorrigível esperança já um tanto cansada mas batalhando sempre. Socorreu-me em momentos difíceis e até hoje se levanta e vai mover o mundo quando alguém precisa de ajuda. E, embora saiba que o jornalismo morreu, trata de ensinar o ofício e a arte aos mais jovens, como um semeador obstinado.

Elson mantém o coração à esquerda. Aprendeu, na juventude, que a justiça social tem um lado. Por isso constata, com preocupação e tristeza, o ressurgimento da estupidez autoritária de um direitismo que já não se envergonha de si mesmo. Não faço mais essa divisão de lados e tenho pra mim que o apodrecimento é generalizado, mas compartilho do sentimento de quem sonhou e lutou com sinceridade. Quem viu os jagunços expulsando seringueiros e ateando fogo às suas casas, acobertados por um governo de coronéis, não esquece os laços de solidariedade que formou durante a guerra. E, sobretudo, não quer ver tudo aquilo outra vez.

Também conversamos sobre coisas boas, os trabalhos que ainda nos animam e o talento dos filhos (no caso dele, também dos netos). A qualidade da arte, a variedade e profundidade das culturas de nossos povos, a sabedoria e o humor que ainda salva tanta gente. Encontra-se até mesmo, procurando com atenção, herdeiros desses valores entre os jovens que seguem escrevendo e fotografando o mundo quase como os antigos jornalistas. No fio da cultura e da arte equilibram-se, para não cair na mediocridade.

Os cabelos brancos do amigo me lembraram um mestre artesão que conheci numa viagem pelo Alto Juruá. Fabricava barcos e acariciava a madeira das armações com um carinho evidente e tocante. Lamentava que os jovens não quisessem aprender seu ofício, no máximo davam uma semana de serviço para comprar uma roupa e ir a uma festa, mas sem tomar amor pela arte. Lá e cá, no hoje e em outros tempos, sempre foi assim: muitos chamados e poucos escolhidos.

Mas a cor e a quantidade dos cabelos pouco importam e, é claro, marquei com Elson alguns compromissos de trabalho. Um deles já foi cumprido: Elson me mandou hoje mesmo os títulos dos livros do jornalista paraense Lucio Flávio Pinto, que prometi passar adiante para orientar o pensamento e a ação de quem ainda luta em defesa da Amazônia. E eu fiquei de voltar em sua casa, munido de gravador e câmera, para gravar a próxima conversa. Que não vai demorar.

(Quer ler textos do Elson? Olha o Almanacre.)

PS: A ótima foto, peguei na internet, é de Arisson Jardim.

 

 

Política Zero

One thought on “Conversa em dia

  1. Embora sempre fincado na acreanidade, desde que o conheci, o grande amigo, Elson, parece transitar por todos os tempos inscritos na história humana e natural.
    Bela crônica sobre esse homem amazônico especial, Toinho!!!

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