Krig-há bandolo… depois da gripe

Danilo de S’Acre

“Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.”
(Fernando Pessoa)

Saiu de uma gruta iluminada (na [não] era pré-histórica), como crustáceos ou diamantes, na Colônia Custódio Freire. Era o ano de 1958. Uma boa safra como dizem sempre, referindo-se ao ano que a gente nasce.
Recém chegado, o grito ouvido do nascido foi Krig-ha, bandolo!!!!
Naqueles tempos, a Custódio Freire ainda era uma floresta densa, mas já apresentava algumas áreas de capoeiras e alguns ensaios de tímidas clareiras… Nasce um assentamento do Incra. Seus pais tinham sido “assentados” junto com mestre Irineu Serra e a família Malveira.
Cresceu e se criou com mais alguns irmãos e irmãs no meio da floresta, que não era a de Edgar Rice Burroughs, mesmo assim, outros gringos já estavam à espreita. .. Não era Tarzan nem Mapinguari, não era paca nem cotia, era Tatu.
Tatu era feliz com seu mundo, brincava muito no mato, tal qual o nosso herói sem nenhum caráter, Macunaíma: bichos encantados, magias, feitiços e demais sortilégios… Admirava a natureza e os céus. Apreciava a beleza, a perfeição das cores, os voadores, insetos, o fogo e as águas. No céu via a criação interminável dos desenhos das nuvens e as cores nas nuvens. O incansável voo das ventanias… As tempestades relampejantes e os trovões severos e surrealistas. Ele achava a natureza a sublime artista da perfeição.
A perfeição pra Tatu foi a coisa determinante para que ele, viesse a querer ser artista. Ele ainda não pensava em nada disso, não sabia nem mesmo o que era artista. Imerso nos quatro cantos dos pássaros, insetos, bichos e mistérios (ou qualquer barulho suspeito sem conceito): a arte contemporânea… Não existia televisão e nem se sabia o que era computador. Na gruta com lamparinas psicodélicas se ouvia o rádio AM de pilhas. As sonoridades das músicas, dos grilos e cigarras, eram sempre festas na casa…
Vivendo neste paraíso, o Tatu “cabeça branca”( ele era quase albino), filho de cearenses e os cearenses eram descendentes de espanhóis, holandeses, africanos, árabes ou portugueses. As sucessões rítmicas regulares das faixas coloridas eram quase coerência, ordem ou desordem, ou somente ressonâncias tridimensionais… Desenvolveu uma certa sensibilidade para as artes, consciente de que “fazer arte” era coisa não muito boa: era traquinagem ou subversão.
E, o traquina veio para a cidade de Rio Branco. Rua Quintino Bocaiuva. No Bosque ainda eram ruas de terra batida. Depois Estação Experimental. Veio à cidade pra estudar. Estudou muitas coisas, captou outras, não aprendeu nada do que quisera ser na vida, mas continuou a pesquisa incessante. Colhia frutas para vender. Vendia picolés, quêbes e ensaiou engraxar sapatos… Depois ia ao Cine Rio Branco, Cine Acre ou o Poeirinha, assistir filmes e escambar gibis. Aprendeu a leitura com os quadrinhos.
Desenhava em papéis de pão, rabiscava com carvão nas paredes, pintava com argila, iodo, suco de groselha e creme dental em papelões, tomava banho de tintas.. Experimentava vários suportes e solidões.
Gostava das artes, começou a ter contato com elas de maneira muito homeopática : Garibaldi Brasil, Genésio Fernandes, Dalmir Ferreira, Hélio Melo… Primeiros passos nos caminhos das artes. As artes plásticas do Acre. Na escola era a grande oportunidade de praticar a tal façanha. Fazer capas de trabalhos, cartazes, e rabiscar cadernos a esmo. Bons tempos, ô txai!
Depois veio a Ufac: Joaquina e Moacir, alicerces da carreira artística, depois Brasília com o Elefante Branco, após Sementes jogadas na Horta, hortas de extremas consolidações e emulsões de Scott, demissões e outras convulsões: Cemitérios de Pássaros em Recife e João Pessoa, ou num Rio de Janeiro de 1980, o cais para a Europa. O Tatu albino foi pra Itália. Sem saber falar, foi pra Roma sem ter boca, nada. Foi andar em praças e subterrâneos exuberantes… Escutou línguas de Babel, regendo sinfonias geométricas, vendo coisas delirantes, universos mutantes, simbolismos exorbitantes , ascensões nos coliseus de turistas abissais. Um mundo cibernético , seres alienígenas , extravagantes, de outros mundos em vertentes de belezas e luxúrias exóticas, imersos em jardins das delícias… Tá bom, é Bosch!
Hoje estamos aqui. Diferentes e iguais. Do mesmo jeito, sem tirar nem pôr.
A vida mudou muito e o mundo ainda não acabou. Continuará em mutação! Estamos esperando novidades sempre… Que venham para melhor. O eco-sistema, do caos extraordinário, vitalize as condições e estratégias para novas propostas construtivistas.
“A pintura é uma arte e a arte é a inútil criação de coisas que desaparecem no vazio, mas é uma força que tem um fim e deve servir ao desenvolvimento e sofisticação da alma”. (Kandinsky).
As pessoas ainda fazem descaso das artes ou de quem é artista, o desprezo e a falta de consideração é um diálogo sem interlocutores.- Tu pinta com meu pinto? (Argh!) -Isso eu também faço! –Meu filho faz, até melhor! –Foi uma aranha quem fez? Que bom que eles “também” fazem arte. Façamos artes!
“A arte não serve para nada. A filosofia também não. Exceto como extensão da pessoa que se é, ou seja do homem que se é. O que se segue e importa saber é se o homem serve para alguma coisa” (Vergílio Ferreira).
Sobreviventes da arte, sem Pinacoteca nem Museus. Se o afrontarem, de cada artista “surgirá de repente um leão. Liberdade, é o querido tesouro que depois de lutar nos seduz: tal o rio que rola, o sol de ouro lança um manto sublime de luz…” Que este sol a brilhar, soberano. Sobre as matas… de Chico, Mangabeira…
“Atenção, jovens do futuro”… Gritemos sempre Krig-ha, bandolo! Atchim!
Em outros cantos! Novas gripes virão…

 

 

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