Vinte e oito

Veriana Ribeiro

É engraçado esse negócio de idade, né? Você passa um ano inteiro se acostumando com um número, às vezes ele é tão estranho que te embola todo. “Eu tenho 25… Não, pera, 26”. Outras, antes mesmo daquela idade chegar, você já sente que ela é sua. Tem idade que a gente anseia: os 13 anos, os 15 anos, os 18 anos… Tem outras que a gente teme: os 30, os 40, os 50.

Vinte e oito. Vin-te-e-oi-to. 28. Falo várias vezes pra ter certeza que estou na idade certa.

Não sei exatamente o que dizer sobre esse número que acabou de chegar na minha vida, mas a sensação é que já faz meses – ou até mesmo anos – que me acompanha. É como se tudo o que tivesse caminhado fosse para chegar neste exato momento, nesta mesma idade.

Talvez seja porque foi aos vinte e oito anos que minha mãe deu à luz a sua primeira filha: eu mesma. Cada vez que penso nisso, sinto que ela era louca por ter uma filha nesta idade. Eu definitivamente não me sinto preparada para ser mãe aos 28 anos e não consigo entender como todas as mães conseguem ter filhos sem acabarem em uma manicômio. É uma responsabilidade imensa para um ser humano carregar. Uma vida inteira nos seus braços, para sempre, daqui até o dia que você morrer.

Olhando para a garota que eu era aos vinte e anos, eu não consigo nem reconhecer os sonhos que tinha e os planos que fazia para o futuro. Alguns se realizaram só pra confirmar que nem sempre o que a gente deseja é aquilo que realmente queremos. Alguns sonhos ficaram no passado e por lá devem permanecer. Algumas experiências são boas lembranças e algumas decisões só tornaram-se importantes agora. A vida foi traçando o seu caminho e eu ainda tento entender as linhas tortas de Deus. E, infelizmente, não perco a mania de tentar adivinhar e planejar o futuro, mesmo sabendo que os planos nunca são como minha mente perfeccionista os elabora, mas permaneço me frustrando com a minha incapacidade de prever o destino.

Ontem, eu passei o aniversário aprendendo a bordar. Entre todas as formas de comemorar o meu dia, eu decidi aprender algo. Já faz alguns anos que fico querendo aprender bordado e nunca vou atrás. Se a menina de 20 anos que um dia fui, que possivelmente passou o aniversário bebendo com os amigos, olhasse para seu aniversário de 28 anos não iria acreditar. A mesma menina que achava bordado uma coisa de gente velha, de mulher recatada do lar que ela não era e não queria ser, a mesma garota que dizia que nunca moraria em São Paulo porque era muito caótico. Ela mesma. Como diz minha amiga, a gente cospe pra cima pra cair na cara.

Aprender a bordar foi reencontrar uma parte de mim que eu nem sabia que existia. Uma parte tradicional, ancestral, das mães, avós, bisavós. De uma maturidade que eu nem sabia que existia. De um desejo que fincar raízes, encontrar soluções, procurar resoluções e definições. De uma linha invisível que me une as todas as mulheres que vieram antes de mim e todas as que ainda vão pisar nessa terra, uma linha que vai, volta e constrói imagens e conta histórias – como as linhas de um bordado.

Talvez crescer seja isso, entender que tudo bem fazer os mesmos passos de quem veio antes de mim. Que não existe vergonha em reviver o passado e assim modificá-lo. Que nem tudo que é novo e moderno, é ouro. Os vinte e oito anos chegam assim, de mansinho, mostrando que a vida pede recolhimento. Que existe alegria em se mostrar pro mundo, mas que também é prazeroso se recolher em si mesma.

Vamos ver o que essa idade ainda vai ensinar.

Política Zero

One thought on “Vinte e oito

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *