Branca nuvem em céu escuro

 Vássia Silveira


Afasto-me do burburinho, dos lero-leros. Das distrações que desencavam, em mim, a fome pelos equívocos. Vejo morrer, sob a poeira invisível dos simulacros, a doce lembrança do cheiro alecrim e a rota incerta das pequenas mãos, a sapiência da língua.

Tudo ao redor vai se refazendo no silêncio: escuto, então, o brinquedo da filha da vizinha caindo no chão; a cadeira arrastada; a tampa da panela que arranha o fogão; as rodas dos carros roçando o asfalto molhado; as gavetas abrindo e fechando; o bocejo do morador ao lado; um ou outro passarinho clamando colo quente.

Há em mim agora uma ausência completa. Uma coleção de interrogações penduradas nos galhos das jaqueiras e mangueiras que trouxe da infância e plantei na alma. Fazem sombra, as árvores. Em dia de sol, deito-me esquecida do mundo sob elas.

Lá no mar, um barco ancorado desencava memórias. Não é de pescador, não é turístico. De onde vem esse barco? Para onde vai? Meus olhos estirados até ele, como se esse prolongamento fosse o bastante para que eu me sentisse a bordo. Quanto tempo mais?

 

E então as cigarras pressentem a brecha das nuvens e cantam uníssonas. Os pássaros não se animam a acompanhar. Devem ter cochilado, aninhados na herança deixada pela noite que se foi.


Tudo é branco lá fora. 

 

 

Vássia Silveira é uma história em construção. Trabalha com jornalismo, escreve crônicas, poesia, pinta nas horas vagas e recentemente descobriu as dores e delícias da tradução literária. É autora dos livros Febre Terçã (2014), Indagações de Ameixas (2011), Quem tem medo do mapinguari? (2008) e Braboletas e ciuminsetos (2007). Integra a antologia Blasfêmeas: mulheres de palavra (2016) e escreve, quando a vida permite, o blog Toda Quinta.

 

 

 

Política Zero

3 thoughts on “Branca nuvem em céu escuro

  1. “Há em mim agora uma ausência completa. Uma coleção de interrogações penduradas nos galhos das jaqueiras e mangueiras que trouxe da infância e plantei na alma. Fazem sombra, as árvores. Em dia de sol, deito-me esquecida do mundo sob elas.”. Ah, Vássia, como entendo as tuas palavras.

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