História quase antiga

(Na fala seringueira, a estrada tornou ao bruto.)

Antonio Alves

Um texto poético e afetuoso como esse do Meirelles, que fiz questão de trazer ao olhar de Caissa, lembra a quem estiver desatento que a vida é uma dádiva e um mistério. E que este mundo merece uma mirada em maior profundidade, pois as coisas estão além das palavras que usamos para descrevê-las. Um rio é muito mais que recursos hídricos e certamente não foi feito para virar barragem. Uma árvore não é só madeira, um povo não é apenas população e o trabalho é mais que profissão e muito, mas muito mais que emprego.

As histórias que ouvimos e também as que vivemos, nos rios e varadouros de nossos interiores amazônicos, formam um grande mapa capaz de orientar muita gente -a humanidade- no caminho da evolução. Um acervo de possibilidades de ser gente, de formas de viver e, de quebra, um inventário de riquezas. Mas é preciso levar a sério a velha frase “o que tem valor, não tem preço”, embora talvez banalizada hoje, de tanto usada para vender o contrário do que diz.

Houve um tempo em que eu fazia muitas palestras (acho que tinha mais gente com curiosidade e paciência de ouvir o que eu digo). Muitas vezes encarei auditórios e platéias, grandes ou mínimas, para contar o que andei vendo ou pensando em minhas andanças Acre adentro e mundo afora. Muitas vezes falei coisas como “desenvolvimento sustentável” e idéias afins, pois também naquelas longínquas eras havia mais gente interessada em responder aos dilemas vitais e mortais gerados pelas diversas ondas de ocupação da Amazônia, especialmente a mais devastadora delas, incentivada no início dos anos 70 pela ditadura militar e continuada nas décadas seguintes por um amplo consórcio entre agronegócio, empreiteiras, grilagem e tráfico, patrocinado aberta ou ocultamente por quase todos os governos e políticos, com raras e honrosas excessões, é claro.

Hoje o debate e o interesse sobre esses assuntos é muito menor. A maioria prefere não chocar-se contra a nova “realidade” criada pelo predomínio absoluto dos grandes projetos e pela simpatia cosmética com que o sistema trata as soluções socioambientais, mantidas, por isso, como um penduricalho de tamanho conveniente. Há também uma profissionalização do assunto, com um tratamento quase técnico até mesmo de questões sociais e culturais que antes estavam permeadas de conflitos e ideologias. Pra completar, entes muito respeitados -ou ao menos temidos- como a opinião pública e a sociedade civil, hoje desapareceram ou se mudaram para o mundo virtual, onde as pessoas e as máquinas se misturam e não se sabe quem é quem.

Os indícios de que o sistema tecnopolítico dominaria a consciência coletiva já eram perceptíveis (não apenas pelo aumento assustador do uso do gerúndio no atendimento ao público), mas se tornaram óbvios quando disseminou-se a idéia do empreendedorismo de um modo seletivo: os empreendimentos sociais e culturais não são considerados, ainda prevalece o antigo bordão “pequenas empresas, grandes negócios”. Claro, o economicismo -como qualquer reducionismo- é muito mais fácil de comunicar, ensinar e aprender do que as visões complexas que exigem do cérebro alguma sensibilidade e abertura para filosofias e ciências “humanas”.

Minha reação foi instintiva. Reparei que minhas palestras estavam ficando mais parecidas com sessões de auto-ajuda, motivacionais, numa tentativa meio aflita de colocar o “sentido da vida” no meio de uma conversa que ficava cada vez mais focada na busca de vantagens competitivas, nichos de mercado, cadeias produtivas, produtividade, escala de produção… Me esgoelava tentando explicar que o tal desenvolvimento sustentável não se resumia aos aspectos econômicos, sendo tão simplista quanto fosse necessário para mudar um grau, meio grau que fosse, o rumo que as coisas estavam tomando. Perdi, é claro, como se estivesse jogando contra o Kasparov, ou pior, contra o computador que ganhou do Kasparov.

Dá pra retomar esse debate? Se sim, em que termos? Embora esteja distante do mundo dos projetos, sei que ainda existe por aí um punhado de pessoas e organizações tocando empreendimentos práticos, comunitários, com a intenção de ser sustentáveis. Gostaria de saber o que permanece, que resultados está dando, quais as perspectivas de futuro… Principalmente, quero avaliar o tamanho da redução ou expansão nos valores, nas idéias, na estética e outros elementos da “produção da subjetividade”. Mas ao menos uma avaliação simples dos resultados, mesmo nos aspectos sociais e econômicos mais evidentes já dá pra começar.

Até onde acompanhei, a ênfase nos aspectos econômicos estava produzindo monstruosidades. Sem atenção à cultura e à qualidade da educação, vi várias comunidades serem destruídas por uma prosperidade feita de objetos, máquinas, plástico, boi, desmatamento, alvenaria, asfalto, drogas… Nem desenvolvimento, nem sustentável. Minha idéia (fixa, talvez) é de que há outros caminhos a serem descobertos e inventados. Não creio que seja possível recuperar o prejuízo, mas, quem sabe…

Quanto às palestras, ainda estou disponível para falar, se me convidam. Mas estou ainda mais interessado em ouvir. E penso que muita gente poderia ganhar, em sentido e valor, ouvindo as histórias desses meninos que ficaram de cabelos brancos nos rios e varadouros das amazônias interiores.

 

 

 

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