Entre o peso e a leveza

“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”

A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera

Veriana Ribeiro

Eu queria ser uma pessoa mais leve.

Desde que me entendo por gente, sinto demais, penso demais, temo demais, analiso demais. É tudo muito intenso e pesado. Uma falha não é apenas uma falha, é um atestado de fracasso. Um erro não é apenas um erro, é algo que preciso analisar e remoer por dias, anos. Eu ainda lembro de besteiras que falei aos 16 anos e fico me perguntando porque disse aquilo. Tenho dificuldade em lidar com tudo o que não posso controlar. Crises sobre coisas que já passaram, ansiosa com tudo que ainda não chegou. Raramente estou no presente.

Eu queria ser leve.

Quando criança eu tinha um sonho recorrente. Era fácil de lembrar porque nunca fui de recordar os meus sonhos quando acordava. Mas esse era tão comum que chegou um momento que já sabia que estava sonhando antes de acordar.

Nele, eu estava em pé no quintal da minha casa de infância, no Irineu Serra. Atrás da nossa casa tinha um quintal que lembrava ser enorme, com uma grande ladeira e uma árvore bem no meio – que adorava subir. Hoje, sempre que volto ao mesmo lugar, não consigo parar de pensar como tudo é pequeno. A ladeira não é mais tão longa, o quintal não é tão grande, a árvore não é tão deslumbrante. No sonho, eu começava a correr a ladeira, indo cada vez mais rápido, até que ao passar pela mangueira no quintal eu pulava e começava a voar. E era magnifico! Eu me sentia tão leve que poderia chegar as nuvens, o vento batia no meu cabelo, eu fechava os olhos e atravessava o céu.

Então eu acordava.

Acho que boa parte das minhas decisões foi em busca dessa leveza. Aprendi a meditar, mas não consegui transformar isso em uma rotina. Criei hábitos matinais que nunca duravam muito. Comecei a usar roupas leves, desamarrar laços, fugir de relacionamentos amorosos (que eram sempre pesados de carregar no peito). Viajava sempre que podia, porque estar em aeroportos e rodoviárias sempre me dava uma sensação de leveza e eu adorava estar de passagem em algum lugar. Viajei tanto que não sentia que pertencia a lugar nenhum, principalmente ao meu local de origem. Me encantava por aventureiros ou qualquer pessoa que aparentava levar a vida de uma forma leve – e tentava seguir seus passos ou imitar suas rotinas.

Aí um dia, uma pessoa me disse que eu aparentava ser uma pessoa muito leve, que andava pela vida como quem flutua. Mas que toda vez que eu desabafava, percebia que carregava todos os pesos do mundo – até aqueles que não eram meus. Que colocava tudo nas costas e escondia atrás de uma máscara de leveza.

Eu queria ser uma pessoa mais leve.

Mas entre a pessoa que eu queria ser e a pessoa que sou, existe um abismo que não sei como atravessar. Quem me dera poder voar.

Política Zero

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