Uma ponte no escuro

Antonio Alves

Sabe aqueles momentos de enorme dificuldade, em que o mundo parece uma máquina enferrujada? Sem um tostão no bolso, nenhuma idéia na cabeça, filho doente… uma hora de espera na fila do banco pra descobrir que o documento não servia e tem que voltar no dia seguinte. Chego em casa me sentindo amassado e jogado fora. Sei que a mulher, no oitavo mês de gravidez, precisa da minha ajuda em casa, mas digo que quero ao menos manter um mínimo de saúde e disposição física pra segurar a barra e por isso tenho que sair para correr. Compreensiva, ela deixa.

Já não corro aqueles dez quilômetros todos os dias, como fazia há algum tempo. Alguma programação biológica, que os amigos afirmam ter relação com a idade, encarregou-se de reduzir para 3 vezes por semana meu esforço atlético. Mais que isso, os ossos gemem e os músculos gritam. Às vezes, retido por algum compromisso ou por esses afazeres que aparecem em cima da hora, acabo saindo para correr mais tarde. A estrada escura e esburacada não me assusta, já estou acostumado. E quando o tempo está muito quente é até melhor correr à noite (e no Acre o tempo é quente com a razoável frequência de, pode-se dizer, quase todos os dias).

É uma hora de diálogo interno, mais tranquilo ou menos dependendo do cansaço e da qualidade do sono na noite anterior (meu sono! eu posso até rir, aqui, com auto-punitivo sarcasmo). Do lado de fora, poucas ocorrências. Às vezes um vizinho reduz a marcha do carro e oferece carona, algum eventual atleta me ultrapassa e cumprimenta com um aceno, tudo serve de incentivo. Mas a noite passada foi diferente. E tenso.

Primeiro, foi na descida da ladeira, aquele trecho longo que na volta, de subida, fica ainda mais longo. Bem na metade, diante de uma parada de ônibus, tava lá o corpo estendido no chão. O cara desacordado, com os braços abertos, metade na calçada e metade na pista. Ao lado, uma bicicleta tombada. Como não vi marcas nem sangue, achei que era bebedeira e passei. Um pouco adiante, a consciência bateu e resolvi voltar pra ver de perto e ajudar se fosse necessário. Dois meninos, uns pixotes mesmo, encostados na parada de ônibus, disseram: “tá bêbo”. Sendo assim, não há muito o que fazer. Juntei a bicicleta, que estava no no meio do caminho, coloquei na calçada e segui adiante. Há um santo protetor dos bebuns e eu tenho ainda 6 km pra dar conta.

Duzentos metros depois, na ponte do igarapé, vejo um cara abraçando uma mulher de modo um tanto exagerado, com o braço em volta do pescoço, tipo finalizando a luta. Quando chego perto ela apela: “ei, me ajuda”. Hesitei por um momento, sem saber o que fazer, e ela emendou: “ele tá me machucando, pede pra ele me soltar”. O cara, falando mais pra mim do que pra ela, retrucou: “você não vai pular, não senhora”. Aí eu tinha que parar.

Procurei saber o que estava havendo. Ela dizia que ele a estava machucando. Ele dizia que estava segurando para impedi-la de pular da ponte. Perguntei o que eram um do outro. Ele não é nada meu, disse ela; ela é minha esposa, disse ele. E aí foram desenrolando a história. Uma sofrida história de uma mulher que ficou viúva e criou três filhos sem precisar de homem nenhum pra lhe incomodar e que agora arranjou esse que só lhe dá desgosto. De um homem que ganha a vida como pedreiro e chega tarde em casa e ela desconfia sem razão porque ele não estava com outra mulher, estava trabalhando. Uma mulher que precisa de compreensão porque ele sabe que ela tem problemas e que já tomou veneno de rato na semana passada e tudo por causa desse homem, que em vez de apoiar faz é falar mal do filho dela. O homem que não falou mal, só disse que o rapaz não tem experiência e é muito devagar, ruim de serviço.

Ele tentou ligar para o pai dela. Ela se sacudiu e o celular dele caiu no chão, tampa prum lado e bateria pro outro. Ela subiu no parapeito da ponte, ele puxou com raiva para derrubá-la no chão. Eu pedi calma, não derrube ela, só segure e deixe que eu pego seu celular. Montei o aparelho e ele conseguiu ligar para o pai dela, mas ela dizia que não adiantava porque já tinha avisado ao pai que aquele seria o último dia de sua vida. Olhei para baixo, a escuridão do abismo. Eu sentia o suor descer pela perna e molhar a meia dentro do tênis. E tentava convencer o casal a sair da ponte para conversarmos na calçada, mais adiante.

Ele falou algo sobre uma visita que não pôde entrar na Penal, mas não entendi se ele foi visitante ou visitado. Ela disse que eu não sabia o que ela tinha passado na vida. E eu disse que ela não podia desistir, que tinha que pensar nos seus filhos. Ela disse que eles já estavam criados. Eu disse que todo mundo passa dificuldade mas ninguém deve se matar. Ele disse que já tentou explicar que ela não é a única pessoa que tem problemas nesse mundo. Ela me olhou e disse, com voz muito triste: “a minha vida não tem nenhum sentido”. E eu não soube dizer nada sobre o sentido da vida.

O pai chegou, finalmente, e conseguiu tirar a filha da ponte, embora ela dissesse não quero, me deixa morrer. Mas ele disse me abrace e a fez andar. Os três me deram as costas e saíram caminhando, repetindo seus ais. E eu não existia. Voltei, ladeira acima. O bêbado já não estava na parada de ônibus, nem a bicicleta. Minhas pernas doíam.

O trajeto até minha casa foi mais difícil que o habitual. Ainda não sei como vou resolver os tantos problemas que ando enfrentando no mundo, esta máquina enferrujada. E houve um tempo em que eu sabia a moral das histórias, mas agora mal consigo lembrar delas.

 

 

 

Política Zero

2 thoughts on “Uma ponte no escuro

  1. À cada dia vamos ouvir mais e mais pessoas constatando: “a minha vida não faz sentido” e, na verdade, faz todo sentido que seja assim. Porque não há sentido em miséria para tantos, para não dizer tanta miséria, enquanto poucos desfrutam de opulência intrinsecamente miserável, que se alimenta da miséria que dá aos outros. É a miséria do ter, mantida pela miséria do ser, andando de mãos dadas. Não há sentido em não ter sentido, até uma lesma tem um sentido pra se arrastar, mas inventamos um modo muito criativo para resolver isso: só tem sentido o que parece ter sentido, nenhum sentido o que de fato é. E assim, a realidade que ensina, se torna apenas ameaça aos nossos melhores sonhos e projeções, todos com muito sentido, obviamente. Isso, pra quem ainda consegue ter sonhos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *