The handmaid’s tale é aqui

Veriana Ribeiro

Uma menina de nove anos foi estuprada diversas vezes pelo padrasto em Recife, até que um dia, engravidou. Naquela época, ela tinha direito ao aborto porque a gravidez foi fruto de um estupro e causava risco de vida, já que seu corpo ainda não estava preparado para dar a luz. É meninas como essa e diversas mulheres que estarão em perigo após a aprovação da PEC 181 na comissão especial do congresso, que restringe o aborto em qualquer tipo de caso.

Segundo a organização Save the Children, de defesa dos direitos da infância, a gravidez precoce é a principal causa de morte entre crianças e adolescentes em todo o mundo. Casos como o da menina de Recife não são exceção, cerca de 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes, a maioria dos abusos é feito por pais, padrastos, amigos ou parentes da vítimas. Para quem perde tempo procurando pedofilia em museu, talvez a gente devesse realmente cuidar das nossas crianças não permitindo que esse absurdo de PEC vá adiante. Porque essa PEC vai destruir a vida de milhares de crianças e levar muitas a morte, seja tentando um aborto ilegal, seja durante o parto para a qual o corpo dessas crianças não estão preparados.

E vai matar muitas mulheres também, que vão continuar procurando as clínicas clandestinas para realizar seus abortos. Segundo estimativa da Pesquisa Nacional do Aborto, uma em cada cinco mulheres até os 40 anos já fez, pelo menos, um aborto no Brasil. Muitas precisam recorrer ao abortamento ilegal e estima-se que um milhão de procedimentos, em geral inseguros, são realizados por ano no Brasil, de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). A cada dois dias uma mulher morre por complicações decorrentes do aborto ilegal no País. Legalizar o aborto não é estimular que mais casos ocorram, é ter controle sobre os que ocorrem.

Nós não estamos salvando vidas proibindo o aborto, nós estamos permitindo mortes. De crianças abusadas, de mulheres que não querem ou não podem ser mães. Caso o projeto avance no Congresso, o Brasil pode fazer parte dos únicos cinco países do mundo que proíbem a interrupção da gravidez em qualquer caso: El Salvador, Malta, República Dominicana, Nicarágua e Vaticano.

Parabéns Brasil, já podemos dizer que em relação ao aborto, nosso país está ficando mais retrogrado do que a Arábia Saudita. Isso mesmo, aquele país que só permitiu em 2017 que as mulheres pudessem dirigir. The handmaid’s tale é aqui. Torço para que a pressão popular não permita que esse texto seja aprovado no congresso, porque isso seria um baque para todas as mulheres. Mas como diz Offred: Nolite te bastardes carborundorum, bitches. Vamos continuar lutando.

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