entretempo

28 JUNHO 2010
(como uma rápida mirada
no tempo algum que não passou
antes de retornar a qualquer hoje)

Tenho olhado tudo, na tentativa de perceber o espírito do momento -o anjo que passa neste agora- e saber o que lhe é próprio. Difícil. A indeterminação é total, relatividade absoluta, e reina a definitiva indefinição.

O interessante paradoxo é a aparência de mesmice. Tudo se repete: palavras, gestos, percepções exauridas de significado. Repito a palavra palavra até que seu som descole de qualquer sentido e seja objeto puro, opaco e obtuso. Assim, uma dislexia arrítmica se instala como semelhança do real, anti-metáfora, meta fora.

Mundo afora, os economistas discordam: uns dizem que a crise pode voltar, outros que ela não foi embora. Nas cidades alagadas do nordeste, as pessoas colocam fotografias para secar ao sol e as olham tentando lembrar de quem eram. Não desprezo a possibilidade de que o mundo tenha acabado.

Resta, entretanto, este entretempo que tento compreender.

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