A tal da conjuntura

Antonio Alves

Não tenho TV, vejo o Brasil na internet.

Leio as notícias, os artigos e comentários, até as análises dos analistas. Todos falam sobre os acontecimentos, é claro, mas falam muito mais sobre as reações, versões e opiniões que circulam nas chamadas redes sociais. Os fatos tem ainda alguma importância, mas o que impressiona é a quantidade gigantesca de palavras e imagens que comentam os fatos. E o fato maior, a estrela do show, é a mentira produzida em escala pós-industrial e espalhada como uma epidemia. “Fake news”, é como chamam, mas o povo do face e whats não tá nem aí pra isso. A realidade é o que andam dizendo e a verdade é o que estão pensando. A única lei é tudo-pode. O melhor método é a zoeira.

Em resumo, o mundo está louco e todo mundo tem certeza de qualquer coisa. Não há espaço para dúvidas, nem questionamentos. Não há conversa. Todo mundo fala e repete, sem pensar. E alguns pensam que pensam: os cientistas políticos e sociais proliferam na crise, explicando o que não entendem.

Houve um tempo em que as reuniões da esquerda começavam com uma “análise de conjuntura”. Depois, a esquerda cresceu e abocanhou pedaços do Estado, tornou-se parte interessada da conjuntura e perdeu, além da moral, o distanciamento epistemológico mínimo, necessário para fazer análises. Com a complexidade do mundo superpovoado (e ainda mais com o crescimento da população virtual) e a também crescente insanidade das ações e reações de indivíduos e grupos -por motivos que a racionalidade socioeconomicista não conhece-, a conjuntura se tornou essa geleca que temos hoje. As análises se tornaram jornalísticas, com tudo o que isso tem de superficialidade e pressa. Hoje predominam os palpites, prognósticos e interpretações das pesquisas eleitorais, o horóscopo da política.

Os mestres do xadrez dizem que um bom plano de jogo é resultado de uma avaliação correta da posição. Nessa avaliação são bastante valorizados os fatores dinâmicos -a “conjuntura”, ou seja, a posição atual das peças e as possibilidades de resolver rapidamente a partida com golpes táticos. Mas o potencial de vitória está, muitas vezes, num prazo mais longo, que é dado pelos fatores estruturais e se revelará após as refregas passageiras, quando as peças de ataque e defesa já se esgotaram e saíram de cena, deixando a decisão para o Rei e os peões.

Com seu agentes circunscritos ao “bateu-levou” da conjuntura, a política está longe de ter o xadrez como metáfora. Mas vou cismando devagar, sem pressa, tentando identificar algumas características de uma camada geológica abaixo da confusão visível, aquilo que pressiona e induz o rumo que as coisas podem tomar. Abdicando da pretensão de análise, faço um relato de minhas percepções.

Impressiona-me, primeiramente, a violência orgânica -física e psicológica- que é fonte da violência manifesta, visível e até espalhafatosa, tornada espetáculo nas mídias. Uma violência vulcânica que ferve internamente antes de irromper no tiro e na briga. Um ódio nas tripas do mundo, meio atávico, meio produzido, que se dissemina na linguagem e em todos os tipos de relacionamento, íntimos ou públicos. Uma brutalidade indiferente ou até orgulhosa de si. Uma estupidez arrogante para qual a insensibilidade é uma virtude e o desprezo pelas idéias é uma vantagem.

De diversas fontes ancestrais, da escravidão e do etnocídio, brotou essa violência íntima. Também de formas diversas foi multiplicada e disseminada. Sofremos muitos esquartejamentos e amputações em quatro séculos e meio, até que um modo industrial de reprodução e empacotamento das subjetividades, em mais algumas décadas, triturasse os ricos materiais da cultura para servi-los no fast-food do entretenimento, embalados em plástico.

Impressiona-me, segundamente, a vertigem e a voracidade do integralismo renascido das cinzas do século passado, emulado por moralismos pseudo-religiosos, pseudo-patrióticos, pseudo-éticos. Uma histeria oportunista, que se reconhece “de direita”, aproveita o desastre provocado pelos que se auto-intitulam de “esquerda” para fazer subir o seu lado da gangorra na política e nos negócios. Sim, no fundo, é por dinheiro que estão brigando. Mas mobilizam forças terrivelmente destrutivas e não escondem seu desejo de eliminação física dos inimigos, o saque das riquezas naturais e a repressão ditatorial contra os pobres, negros, índios, gays e “tudo o que não presta”, como disse um de seus políticos.

Vivemos um tempo de regressão. Marcados e pressionados por esse sinal negativo, com um pensamento repetitivo e opaco, ficamos atolados em um longo presente em que não se vê futuro. Nossos filhos nos sustentam, com seus tocantes esforços para abrir caminho entre os escombros de nossa falência.

Entre outras secretas esperanças, confiamos numa nova geração que faça melhor uso da tecnologia de comunicação que, afinal de contas, a ela pertence e na qual nos movemos como rinocerontes. Também desejamos que encontre modos de gerenciar os bens e assuntos coletivos inventando para isso algo melhor que a política.

Por enquanto, temos uma eleição difícil com a ameaça integralista de ocupar o “aparelho” do Estado e promover nos trópicos um espetáculo semelhante ao norte-americano, com o mesmo ridículo mas com maior estupidez. Mas, enfim, conjuntura é conjuntura, nada está escrito. Ou está?

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