Mesmo que você não acredite

por Veriana Ribeiro

Eu nunca quis te machucar. Mas a verdade é que essa tua falsa força me enganou. Entre teus momentos de bravura e decoro, me esqueci o quanto você era fácil de quebrar. Não percebi a tua sensibilidade para tudo. Você sente demais. Mais do que as outras pessoas. Ou talvez sinta o mesmo, mas de uma forma diferente, porque as coisas que machucam os outros não te ferem, mas aquilo que é banal e ninguém percebe te destrói por dentro. Eu tento justificar assim as cicatrizes que te fiz, como se ao me convencer que na verdade o problema está na forma como você se magoa fosse diminuir o fato que fui eu o responsável pela tua dor.

Eu não quero ser responsável pelas tuas mágoas.

Mas como não ser, não é? Como viver essa vida sem machucarmos uns aos outros. E esse sou eu, novamente, tentando encontrar uma desculpa pelas minhas ações. Ao acreditar que isso é inevitável, que a dor faz parte da construção subjetiva das relações interpessoais modernas e todas essas baboseiras que os psicanalistas ensinam para a gente se sentir melhor com nossas próprias neuras, eu não preciso lidar com a verdade nua e crua.

Eu machuquei você.

Foi nas pequenas coisas. Nos atrasos constantes, que para mim eram só o meu eterno problema com o relógio, mas para você representava a total falta de consideração pelo seu tempo, como se você não tivesse mais nada para fazer além de me esperar. E você esperava. Por horas a fio. Mostrando que apesar da minha tendência de me atrasar, você estava ali, disposta a esperar por mim, por mais que a cada dia eu demorasse mais a chegar. Até que um dia simplesmente deixei de ir.

Em todas as vezes que eu não quis conhecer os seus amigos, que para mim era apenas a minha incapacidade de me relacionar com pessoas novas, mas para você demonstrava a minha indisposição para entrar na sua vida. A falta de interesse de conhecer quem você era quando não estava comigo, porque na verdade, para você, eu não queria te conhecer por inteiro.

Isso não é verdade.

É porque para mim, o seu inteiro não era quando estava rodeada com todas aquelas pessoas que fazem parte da sua vida e você compartilha memórias, aquilo era um fragmento seu. Você só era por inteira quando falava seus monólogos internos deitada na cama e olhando para o teto. Aquelas coisas que você confidenciava em segredo, como se tivesse falando mais para si mesma do que para mim.

Aquele era seu inteiro.

Aquele amontoado de inseguranças que eu não percebi o quanto eram profundas até te ver chorando naquela tarde de domingo na sala do meu apartamento. Acho que tua bravura e forma de falar, como quem sempre sabe das coisas, me enganaram de tal forma que não percebi que você me dizia a verdade quando brincava com suas fragilidades.

Elas eram reais e eu só fui perceber tarde demais.

Ou optei ignorar os sinais, até que ficasse insustentável.

 
Eu não queria acreditar que apesar de todo o amor que sentia por você, era incapaz de apenas não te machucar. Era incapaz de modificar minha forma de agir para encontrar um meio termo até a sua forma de agir.

Na minha vida eu sempre fui só eu, e isso fazia com que fosse impossível ser nós.

Eu não podia ser nós, mas queria fingir que sim.

E foi nessas ilusões que fui te machucando.

Eu juro, eu não queria fazer isso. Eu gostaria de ter conseguido viver naquela vida que você tentava me encaixar, mas a verdade é que por mais que tentasse e quisesse, eu não conseguia me enquadrar ali. Eu espero que algum dia você possa me perdoar, porque eu juro que apesar do meu jeito torto de amar, o amor era real. O sentimento, as palavras, os desejos e as confissões. Foi tudo real. Mesmo que você acredite no contrário.

Eu espero que ainda possamos ser amigos. Apesar de essa ser a pior frase para se dizer a um antigo amor, ela é verdadeira. A verdade é que você sempre vai ser pra pessoa a quem eu ligo às três da manhã para perguntar como tirar a mancha de vinho da camisa branca, sabendo que você vai estar acordada por causa da sua insônia. E eu vou ser sempre a pessoa que te consolou quando seu cachorro morreu e te ajudou a fazer o enterro dele e ornamentar o túmulo improvisado, para depois tomarmos sorvete. E eu quero manter essa intimidade que construímos, apesar de não amar mais você. Ou talvez ame, só que de outra forma. Ou da mesma forma, só que não queira um relacionamento. Ou talvez queira, mas não com você, porque eu sinto que se eu tivesse um relacionamento com você a gente iria perder aquilo que eu mais gosto em nós. Acho que nem eu sei o que quero. Você sempre disse que eu era meio confuso, não é? Pois então.

Só sei que não posso ser nós.

Mas quero continuar sendo eu e você.

2 thoughts on “Mesmo que você não acredite

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