Num fechar de olhos

(tempus fugit…)

Antonio Alves

Minha filha manda uma foto de seu colchão novo sobre o chão de tacos de madeira, no quarto do novo apartamento em que vai morar. Antes de dormir, em minha casa no meio das árvores desta província tão distante, olho a foto por um tempo não tão longo quanto minha insônia ancestral. Tenho, talvez, a esperança de que a imagem, de algum modo, me ajude a dormir. E durmo.

Quando acordo, tenho outra vez meus vinte anos e me espreguiço em uma manhã fria de domingo no apartamento de alguma Brasília, algum Rio ou qualquer lugar de vida paulistana. Fico sobre meu colchão, olhando o teto, esperando que a fome cresça e ganhe forças para vencer a preguiça. Depois levanto, visto alguma roupa que também ainda dorme pendurada atrás da porta e vou comer um pão na chapa com leite pingado no boteco da esquina. Olho a face inexpressiva de uma manhã sem dinheiro e ouço o chamado de meu novo colchão, que já sente saudade.

Antes de deitar novamente, na companhia de livros e cadernos onde algum sentimento vago quer se escrever, abro a janela para que entrem os sons da grande cidade e, quem sabe, algum amor que venha voando e pouse ao meu lado. Não sei se o nome disso é vida, mas é uma coisa boa. Melhor aos domingos, quando não faz calor.

Há um perigo lá fora (há sempre alguma ditadura à solta, por aí), mas a tarde trará uma cor, um casaco confortável, uma música. Amarei para sempre este dia, que já se torna noite. E durmo, para acordar aos 60, em minha casa entre as árvores, numa província distante.

 

 

Política Zero

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