Nós, clandestinas

por Veriana Ribeiro

palavra aborto pairava na minha cabeça enquanto eu fazia as contas. Estava três dias atrasada. Apenas isso. Minha menstruação nunca foi regular, então isso não deveria ser um motivo de pânico. Mas eu havia feito sexo pela primeira vez no mês passado, então aquele pequeno atraso virou algo absurdamente assustador. Relembrei aquela noite diversas vezes, pensando em cada momento, no que poderia ter acontecido de errado. Nada extraordinário vinha à mente, havíamos sido cuidadosos. Ainda assim, sentada no banheiro do trabalho, eu não conseguia pensar em outra coisa. Era a primeira vez que a palavra entrava na minha vida. Não como um debate ocorrendo na mesa de bar ou nas redes sociais. Era a primeira vez que a palavra tomava sentido. Eu não conseguia parar de pensar nela. Se estivesse grávida, eu realmente teria coragem de fazer um aborto?

Eu acredito em reencarnação. O que significava impedir que uma alma voltasse a este plano? O que isso significava pra minha religião e religiosidade? O que eu veria se tomasse Daime após fazer um aborto? Como eu viveria com aquela decisão? Não seria melhor ter um filho? Eu queria ser mãe? Ao mesmo tempo, eu pensava na minha vida. Na faculdade ainda na metade, no trabalho que eu queria largar, no futuro que eu tinha pela frente e que mudaria para sempre, nos sonhos que seriam interrompidos. No medo que eu sentia da palavra maternidade.

Pra mim, maternidade nunca foi uma benção. Eu entendia como muitas mulheres poderiam amar a ideia de ter filhos e sonhavam com isso, imaginavam nomes, ansiavam por esse futuro. Mas eu nunca sonhei com uma família. Eu nunca quis casar. Eu nunca quis ter um filho.

Filho me lembrava que minha mãe nunca fez um mestrado porque precisava cuidar dos filhos e do marido, me lembrava das dívidas que ela fez quando o casamento acabou e ela ficou desempregada. Me lembrava de todos os sacrifícios que ela fez, por amor e responsabilidade. Que precisou colocar o sonho dos outros na frente dos seus. Maternidade era abnegação.

Me lembrava de todas as noites mal dormidas, das vezes que ficou no hospital esperando os filhos se curarem de alguma doença, de todas as preocupações quando a gente saía de casa e ela não podia controlar que os males do mundo não nos atingissem. Eu conseguia me imaginar abrindo mão dos meus sonhos por um filho, mas não conseguia suportar a ideia da minha felicidade ficar nas mãos de alguém frágil, que por um erro meu ou do destino poderia morrer, me deixando despedaçada. Não conseguia lidar com a ideia de que a vida de outra pessoa dependeria das minhas decisões, boas ou ruins. Que uma escolha errada poderia deixar um trauma. O peso daquela responsabilidade me sufocava.

Eu não estava grávida, claro. Foi apenas um atraso.

Mas aquela foi a primeira vez que me vi imaginando o que seria mais cruel, trazer uma criança a vida tendo uma mãe inexperiente, despreparada, inconsequente, aterrorizada e magoada… ou impedir que ela fosse uma criança. Morresse ainda feto.

Aborto.

Essa palavra pairou secretamente na minha cabeça todas as vezes que a menstruação atrasou. Após cada camisinha estourada. Depois de cada pílula do dia seguinte – que eu prometia a mim mesma que seria a última. A cada ida ao ginecologista. A cada amiga que me falava que estava grávida. A cada sexo – casual ou não. A cada vez que um homem me pedia pra não usar camisinha porque incomodava, sem entender que ele estava pedindo pra eu brincar de roleta russa com a minha vida. Depois da decisão de não usar uma pílula cheia de hormônios que poderia me causar uma série de doenças. A cada chá de canela que eu tomava ‘pra ajudar’ a descer a menstruação.

Aborto.

Essa palavra sussurrada nas conversas entre amigas. Pela mãe cuidando do filho -que confidencia ter procurado um médico para abortá-lo, mas desistiu na última hora-, olhando com amor e dúvida para criança, ainda pensando se tinha feito a escolha certa, mas sabendo que agora era tarde demais. Do amigo que reclamava preocupado que a namorada não ia ao médico depois de ter feito um aborto pra ver se estava tudo bem, sem entender que ela não podia. Da amiga que me dizia “meu médico disse que se eu estiver grávida a gente dá um jeito”, deixando a palavra pairar no ar. Das inúmeras mulheres que me perguntaram “se eu estiver grávida você me ajuda?”. E eu falando que sim, mesmo sabendo o que aquilo significava.

Aborto.

Pra mim, essa palavra não é um debate do facebook ou no Supremo Tribunal Federal (STF). Não é um conceito. É uma realidade, que paira sobre a minha cabeça.

Durante as audiências públicas convocadas pelo Supremo Tribunal Federal na última semana Debora Diniz disse: “Toda mulher no Brasil sabe abortar, e sabe cuidar de outra. Sabemos porque precisamos”. Essa frase me atingiu como uma flecha no peito, porque eu percebi que era verdade.

Nós sabemos. Nós cuidamos. Nós sobrevivemos. Nós morremos.

Nós, clandestinas. Hoje e sempre.

 

Ilustração: Theresa Baxter

 

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