Coador

Antonio Alves

O   medo cria o monstro, a raiva o faz mais forte. Café é bom purgante.

Vomitei a raiva, caguei o medo. Depois tomei um banho e me vesti de branco. Agora vou à luta do trabalho, sem saber quando termina, se termina. Vivi tempos bons, tempos ruins, muita coisa aprendi, muita coisa esqueci. Agora tenho a companhia amorosa de uma penca de filhos e por eles uma enorme responsabilidade. A vida deles e de todos, a paz. O pão do corpo e do espírito, o amor.

Olhei para minha juventude em busca da energia e da força que um dia tive. Percebi duas ou três pontas soltas, que precisam ser novamente atadas. Uma: a força é mais branda, quase imperceptível, e por isso mesmo mais firme; o que perdi em velocidade, ganhei em resistência. Outra: quanto mais alto levantei bandeiras, mais longe elas ficaram do chão em que caminhava; agora me restam poucas e fiz delas meus sapatos.

Lembrei de uma lição aprendida nos varadouros, entre as nascentes dos igarapés: fazer primeiro a cooperação, só depois -e se necessário- a cooperativa. É a partilha do pão que faz o companheiro. A prece cria o domingo, não o contrário.

Hoje começo. Amanhã, novamente. Quem entender, está convidado.

 

 

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